quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Multidisciplinaridade: o patrimônio cultural propicia encontros (Parte 2)


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        As primeiras políticas oficiais de patrimônio cultural no Brasil iniciaram em 1936 com o anteprojeto proposto por Mário de Andrade, que colaborou com a criação de um órgão federal voltado a proteção desse patrimônio. O primeiro gestor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, (antigo SPHAN), foi Rodrigo Franco Melo de Andrade, para ele: desaparecimento e reconstrução é que movia as narrativas nacionais sobre patrimônio cultural, em sua busca por autenticidade e redenção, se referindo as obras de artes, a arquitetura barroca e católica como referenciais para o processo de patrimonialização. Ele usava sempre a história como disciplina chave.
O historiador Reginaldo Gonçalves em a Retórica da Perda faz um apanhado sobre os primeiros discursos sobre o patrimônio cultural brasileiro. É uma oportunidade de adquirir um entendimento sobre como iniciou efetivamente às políticas voltadas a preservação do patrimônio cultural no país, como por exemplo, o Tombamento.
Dois momentos são fundamentais para implementação de políticas de preservação voltadas ao patrimônio histórico e cultural no Brasil, podemos entender que são dois momentos distintos sobre as narrativas e abordagens acerca do patrimônio cultural. O primeiro inicia-se na década de 30 com Mário de Andrade e Rodrigo Melo Franco de Andrade como mencionado anteriormente, e o segundo momento é o da política implementada por Aloísio Magalhães, no Centro Nacional do Folclore e sua rápida passagem como gestor do IPHAN.
Aloísio Magalhães se refere a bens culturais em observância à pluralidade cultural do país, a cultura popular tradicional e contribuições das comunidades tradicionais remanescentes de sociedades primitivas: as etnias indígenas e africanas, utilizando a antropologia como disciplina referencial.
A década de 1930 foi um período de mudanças no Brasil, naquele momento, educação e cultura estavam circunscritas a um único universo, também na mesma década as primeiras ações legais voltadas para a conservação e valorização do Meio Ambiente. Estes temas estavam representados principalmente pelo Código Florestal instituído através do Decreto nº 23, 793, de 23 de janeiro de 1934 e pelo Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, que organiza a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional.
Destaco aqui, o interesse na paisagem como um bem patrimonial. De acordo com Rafael Ribeiro, geógrafo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tal interesse se manifestou na criação do Livro de Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. Assim como houve transformação nas práticas de preservação dos demais bens culturais, as formas de compreensão da paisagem e sua valorização também se transformaram ao longo do tempo (Rafael Ribeiro, pg 07). Contemplarei nesse texto, o tema Paisagem como Patrimônio Cultural, utilizo a geografia como linha orientadora base desse trabalho, onde urbanismo, ambiente e o meio ambiente aparecem camufladamente.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/IPHAN recentemente incorpora o tema paisagem cultural, Luiz Fernando de Almeida, ex-presidente do órgão, nos conta que sua característica fundamental é a ocorrência, em uma fração territorial, do convívio singular entre a natureza, os espaços construídos e ocupados, os modos de produção e as atividades culturais e sociais, numa relação complementar entre si, capaz de estabelecer uma identidade que não possa ser conferida por qualquer um deles isoladamente. Com a adoção de categoria integradora de paisagem cultural o IPHAN responde à crescente complexidade da sociedade contemporânea, que exige um conjunto maior de instrumentos urbanísticos, ambientais e jurídicos de proteção do patrimônio e aponta a possibilidade de se viabilizar um trabalho de gestão do território pactuado entre os diversos agentes da esfera pública e privada. (paisagem e patrimônio cultural, pg 07).
            Para Ribeiro, a vinculação entre paisagem e patrimônio cultural não é recente, mas vem ganhando especial destaque, nas últimas décadas, em determinadas áreas, através de noção de paisagem cultural. No entanto, a pequena participação de geógrafos dentro das instituições de preservação do patrimônio cultural no país fez com que a vasta contribuição da geografia neste campo tenha permanecido conhecida apenas por alguns iniciados. Por esta razão, é importante discutir como a paisagem se transformou mais de um conceito-chave para algumas correntes da geografia e como a discussão de mais de um século sobre o tema pode ser importante para o desenvolvimento de novas reflexões sobre as estratégias de atribuição de valor de uma paisagem. (IBID). Para maior compreensão, recomendo leitura da obra Paisagem e Patrimônio Cultural, citada nas fontes consultadas.
De acordo com o geógrafo Milton Santos: É por demais sabido que a principal forma de relação entre o homem e a natureza, ou melhor, entre o homem e o meio, é dada pela técnica. As técnicas são um conjunto de meios instrumentais e sociais, com os quais o homem realiza sua vida, produz e, ao mesmo tempo, cria espaço. Essa forma de ver a técnica não é, todavia, completamente explorada. (Santos, pg 16).
Santos nos conta que historiadores da ciência e especialistas da técnica, como é o caso de B. Joerges (1988, p. 16), lamentam o fato de que nos estudos históricos a realidade dos sistemas técnicos apareça como um dado entre aspas, faltando a conceptualização. Para ele, essa crítica, aliás, não é recente. M. Mauss, um dos principais seguidores de Durkheim, lembrava, num dos seus textos da revista UHomme Sociologique, que a sociologia de Durkheim não havia atribuído a importância devida ao fenômeno técnico. Essa crítica é compartida por Armand Cuvillier (1973, p. 189), ao se referir a três grupos de estudiosos que "tomaram consciência" da importância da técnica: a) pré-historiadores e arqueólogos; b) etnógrafos (que escrevem a história dos povos "sem história") e c) tecnólogos propriamente ditos. Mauss (1947, p. 19), aliás, havia proposto a criação de um saber - a Tecnomorfologia - que se ocuparia do conjunto das relações entre as técnicas e o solo e entre o solo e as técnicas, dizendo que "em função das técnicas é que observaremos a base geográfica da vida social: o mar, a montanha, o rio, a laguna". (Santos, pg 17)
Tomando um aspecto concreto da análise geográfica, Pierre George (1974, p. 82) distingue a cidade atual da cidade anterior, lembrando que esta, na metade do século XIX, seria um produto cultural. Hoje, a cidade "está a caminho de se tornar muito rapidamente, no mundo inteiro, um produto técnico". E acrescenta: "a cultura era nacional ou regional, a técnica é universal".
Outro geógrafo que se deteve longamente sobre a questão da técnica foi Pierre Gourou (1973), para quem "o homem, esse fazedor de paisagens, somente existe porque ele é membro de um grupo que em si mesmo é um tecido de técnicas". Os fatos humanos do espaço teriam de ser examinados em função de um conjunto de técnicas. Ele divide as técnicas em dois grandes grupos: técnicas da produção e técnicas de enquadramento. (IBID).
Em Sergipe tem a Fonte dos Caboclos no município de Cristinápolis, tombado pelo Governo do Estado, de interesse paisagístico, histórico, cultural e arqueológico que precisa ser mais explorada no que se refere à pesquisa e implementar ações que visem a preservação do bem.
(...A geografia baseia-se, na realidade, na união dos elementos físicos e culturais da paisagem. O conteúdo da paisagem é encontrado, por tanto, nas qualidades físicas da área que são importantes para o homem e nas formas do uso da área, em fatos de base física e fatos da cultura humana... RIBEIRO, Rafael apud Carl Sauer, 1996 [1925]).
          Dessa forma, entendemos que a Fonte dos Caboclos precisa ser rediscutida no tocante a salvaguarda do monumento e conservação ambiental, para que o seu uso, ou seja, o seu ambiente seja utilizado de forma sustentável, para que as futuras gerações possam desfrutar o bem cultural.
A cada ano crescem as demandas referentes ao patrimônio cultural, é importante que os órgãos estaduais de patrimônio formem equipes multidisciplinares focando a interdisciplinaridade, a intersetorialidade, articulando com os órgãos federais, estaduais e os municipais.
Assim, o patrimônio cultural reúne diversos campos do conhecimento científico e do saber comum das pessoas, colaborando para o desenvolvimento local, regional, de um país e do mundo.
                                              
Marcos Paulo Carvalho Lima
Pesquisador
Licenciado em História/UFS
Especialização em Ensino para a
Igualdade nas Relações Étnico-Raciais/FSLF


Fontes Consultadas:

GONÇALVES, José Reginaldo, A Retórica de Perda: primeiras discussões sobre o patrimônio cultural brasileiro. MINC/IPHAN. 2005.
RIBEIRO, Rafael Winter, Paisagem e Patrimônio Cultural. Pesquisa e Documentação do IPHAN/MINC. Rio de Janeiro, 2007.
SANTOS, Milton, 1926-2001. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção / Milton Santos. - 4. ed. 2. reimpr. - São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006. - (Coleção Milton Santos; 1).
_______ Patrimônio: Práticas e Reflexões. Metodologia de Pesquisa e Multidisciplinaridade no IPHAN. Rio de Janeiro, Copedoc/DAF/IPHAN, 2010.