quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Multidisciplinaridade: o patrimônio cultural propicia encontros (Parte 2)


http://www.faxaju.com.br/conteudo.asp?id=194128

        As primeiras políticas oficiais de patrimônio cultural no Brasil iniciaram em 1936 com o anteprojeto proposto por Mário de Andrade, que colaborou com a criação de um órgão federal voltado a proteção desse patrimônio. O primeiro gestor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, (antigo SPHAN), foi Rodrigo Franco Melo de Andrade, para ele: desaparecimento e reconstrução é que movia as narrativas nacionais sobre patrimônio cultural, em sua busca por autenticidade e redenção, se referindo as obras de artes, a arquitetura barroca e católica como referenciais para o processo de patrimonialização. Ele usava sempre a história como disciplina chave.
O historiador Reginaldo Gonçalves em a Retórica da Perda faz um apanhado sobre os primeiros discursos sobre o patrimônio cultural brasileiro. É uma oportunidade de adquirir um entendimento sobre como iniciou efetivamente às políticas voltadas a preservação do patrimônio cultural no país, como por exemplo, o Tombamento.
Dois momentos são fundamentais para implementação de políticas de preservação voltadas ao patrimônio histórico e cultural no Brasil, podemos entender que são dois momentos distintos sobre as narrativas e abordagens acerca do patrimônio cultural. O primeiro inicia-se na década de 30 com Mário de Andrade e Rodrigo Melo Franco de Andrade como mencionado anteriormente, e o segundo momento é o da política implementada por Aloísio Magalhães, no Centro Nacional do Folclore e sua rápida passagem como gestor do IPHAN.
Aloísio Magalhães se refere a bens culturais em observância à pluralidade cultural do país, a cultura popular tradicional e contribuições das comunidades tradicionais remanescentes de sociedades primitivas: as etnias indígenas e africanas, utilizando a antropologia como disciplina referencial.
A década de 1930 foi um período de mudanças no Brasil, naquele momento, educação e cultura estavam circunscritas a um único universo, também na mesma década as primeiras ações legais voltadas para a conservação e valorização do Meio Ambiente. Estes temas estavam representados principalmente pelo Código Florestal instituído através do Decreto nº 23, 793, de 23 de janeiro de 1934 e pelo Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, que organiza a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional.
Destaco aqui, o interesse na paisagem como um bem patrimonial. De acordo com Rafael Ribeiro, geógrafo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tal interesse se manifestou na criação do Livro de Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. Assim como houve transformação nas práticas de preservação dos demais bens culturais, as formas de compreensão da paisagem e sua valorização também se transformaram ao longo do tempo (Rafael Ribeiro, pg 07). Contemplarei nesse texto, o tema Paisagem como Patrimônio Cultural, utilizo a geografia como linha orientadora base desse trabalho, onde urbanismo, ambiente e o meio ambiente aparecem camufladamente.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/IPHAN recentemente incorpora o tema paisagem cultural, Luiz Fernando de Almeida, ex-presidente do órgão, nos conta que sua característica fundamental é a ocorrência, em uma fração territorial, do convívio singular entre a natureza, os espaços construídos e ocupados, os modos de produção e as atividades culturais e sociais, numa relação complementar entre si, capaz de estabelecer uma identidade que não possa ser conferida por qualquer um deles isoladamente. Com a adoção de categoria integradora de paisagem cultural o IPHAN responde à crescente complexidade da sociedade contemporânea, que exige um conjunto maior de instrumentos urbanísticos, ambientais e jurídicos de proteção do patrimônio e aponta a possibilidade de se viabilizar um trabalho de gestão do território pactuado entre os diversos agentes da esfera pública e privada. (paisagem e patrimônio cultural, pg 07).
            Para Ribeiro, a vinculação entre paisagem e patrimônio cultural não é recente, mas vem ganhando especial destaque, nas últimas décadas, em determinadas áreas, através de noção de paisagem cultural. No entanto, a pequena participação de geógrafos dentro das instituições de preservação do patrimônio cultural no país fez com que a vasta contribuição da geografia neste campo tenha permanecido conhecida apenas por alguns iniciados. Por esta razão, é importante discutir como a paisagem se transformou mais de um conceito-chave para algumas correntes da geografia e como a discussão de mais de um século sobre o tema pode ser importante para o desenvolvimento de novas reflexões sobre as estratégias de atribuição de valor de uma paisagem. (IBID). Para maior compreensão, recomendo leitura da obra Paisagem e Patrimônio Cultural, citada nas fontes consultadas.
De acordo com o geógrafo Milton Santos: É por demais sabido que a principal forma de relação entre o homem e a natureza, ou melhor, entre o homem e o meio, é dada pela técnica. As técnicas são um conjunto de meios instrumentais e sociais, com os quais o homem realiza sua vida, produz e, ao mesmo tempo, cria espaço. Essa forma de ver a técnica não é, todavia, completamente explorada. (Santos, pg 16).
Santos nos conta que historiadores da ciência e especialistas da técnica, como é o caso de B. Joerges (1988, p. 16), lamentam o fato de que nos estudos históricos a realidade dos sistemas técnicos apareça como um dado entre aspas, faltando a conceptualização. Para ele, essa crítica, aliás, não é recente. M. Mauss, um dos principais seguidores de Durkheim, lembrava, num dos seus textos da revista UHomme Sociologique, que a sociologia de Durkheim não havia atribuído a importância devida ao fenômeno técnico. Essa crítica é compartida por Armand Cuvillier (1973, p. 189), ao se referir a três grupos de estudiosos que "tomaram consciência" da importância da técnica: a) pré-historiadores e arqueólogos; b) etnógrafos (que escrevem a história dos povos "sem história") e c) tecnólogos propriamente ditos. Mauss (1947, p. 19), aliás, havia proposto a criação de um saber - a Tecnomorfologia - que se ocuparia do conjunto das relações entre as técnicas e o solo e entre o solo e as técnicas, dizendo que "em função das técnicas é que observaremos a base geográfica da vida social: o mar, a montanha, o rio, a laguna". (Santos, pg 17)
Tomando um aspecto concreto da análise geográfica, Pierre George (1974, p. 82) distingue a cidade atual da cidade anterior, lembrando que esta, na metade do século XIX, seria um produto cultural. Hoje, a cidade "está a caminho de se tornar muito rapidamente, no mundo inteiro, um produto técnico". E acrescenta: "a cultura era nacional ou regional, a técnica é universal".
Outro geógrafo que se deteve longamente sobre a questão da técnica foi Pierre Gourou (1973), para quem "o homem, esse fazedor de paisagens, somente existe porque ele é membro de um grupo que em si mesmo é um tecido de técnicas". Os fatos humanos do espaço teriam de ser examinados em função de um conjunto de técnicas. Ele divide as técnicas em dois grandes grupos: técnicas da produção e técnicas de enquadramento. (IBID).
Em Sergipe tem a Fonte dos Caboclos no município de Cristinápolis, tombado pelo Governo do Estado, de interesse paisagístico, histórico, cultural e arqueológico que precisa ser mais explorada no que se refere à pesquisa e implementar ações que visem a preservação do bem.
(...A geografia baseia-se, na realidade, na união dos elementos físicos e culturais da paisagem. O conteúdo da paisagem é encontrado, por tanto, nas qualidades físicas da área que são importantes para o homem e nas formas do uso da área, em fatos de base física e fatos da cultura humana... RIBEIRO, Rafael apud Carl Sauer, 1996 [1925]).
          Dessa forma, entendemos que a Fonte dos Caboclos precisa ser rediscutida no tocante a salvaguarda do monumento e conservação ambiental, para que o seu uso, ou seja, o seu ambiente seja utilizado de forma sustentável, para que as futuras gerações possam desfrutar o bem cultural.
A cada ano crescem as demandas referentes ao patrimônio cultural, é importante que os órgãos estaduais de patrimônio formem equipes multidisciplinares focando a interdisciplinaridade, a intersetorialidade, articulando com os órgãos federais, estaduais e os municipais.
Assim, o patrimônio cultural reúne diversos campos do conhecimento científico e do saber comum das pessoas, colaborando para o desenvolvimento local, regional, de um país e do mundo.
                                              
Marcos Paulo Carvalho Lima
Pesquisador
Licenciado em História/UFS
Especialização em Ensino para a
Igualdade nas Relações Étnico-Raciais/FSLF


Fontes Consultadas:

GONÇALVES, José Reginaldo, A Retórica de Perda: primeiras discussões sobre o patrimônio cultural brasileiro. MINC/IPHAN. 2005.
RIBEIRO, Rafael Winter, Paisagem e Patrimônio Cultural. Pesquisa e Documentação do IPHAN/MINC. Rio de Janeiro, 2007.
SANTOS, Milton, 1926-2001. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção / Milton Santos. - 4. ed. 2. reimpr. - São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006. - (Coleção Milton Santos; 1).
_______ Patrimônio: Práticas e Reflexões. Metodologia de Pesquisa e Multidisciplinaridade no IPHAN. Rio de Janeiro, Copedoc/DAF/IPHAN, 2010.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Multidisciplinaridade: O patrimônio cultural propicia encontros

http://www.faxaju.com.br/conteudo.asp?id=187861

15/8/2014 07:01:26


O dia 17 de agosto é celebrado o dia do patrimônio histórico e Cultural brasileiro. A data foi escolhida em virtude do nascimento do primeiro presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/IPHAN, Rodrigo Melo Franco de Andrade.
O tema patrimônio cultural reúne diversas áreas do conhecimento, como: história, ciências sociais, museologia  direitos culturais, meio ambiente, educação, entre outros segmentos de estudos e pesquisas do campo cultural, social e da memória coletiva de um povo e de uma nação.
Para comemorar o Dia Nacional do Patrimônio Cultural, várias atividades ocorrem por todo o país, ações de educação patrimonial, palestras, oficinas, entre outras atividades com o objetivo de difundir e salvaguardar a memória coletiva.
Como diz a professora Ana Conceição Sobral de Carvalho, uma das mais experientes da área de preservação do patrimônio cultural sergipano: “O patrimônio cultural do povo deve ser preservado e vivenciado por cada um de nós, sem discriminação de época e poder.”
 Na visão de Rodrigo de Andrade, para ele: desaparecimento e reconstrução é o que move as narrativas nacionais sobre patrimônio cultural. Em sua busca por autenticidade e redenção, se referindo as obras de artes, a arquitetura barroca e católica como referenciais de patrimônio. Ele usava sempre a história como disciplina chave. Diferentemente de Aloísio que se refere a bens culturais em observância à pluralidade cultural do país, a cultura popular tradicional e contribuições das comunidades tradicionais remanescentes de sociedades primitivas: as etnias indígenas e africanas, utilizando a antropologia como disciplina referencial. Reginaldo Gonçalves, utiliza discurso da perda(A retórica da perda), se referindo ao processo de miscigenação e o de homogenização  sendo um pouco contraditório, já que a tal perda seria por conseqüências as vezes impostas ou por decorrência de algumas situações.
As políticas oficiais de patrimônio cultural no Brasil se deram em 1936 com o anteprojeto proposto por Mário de Andrade, que colaborou com a criação de um órgão federal voltado a proteção desse patrimônio. Antes, precisamente em 30, uma política educacional e cultural já se incorporava no plano do governo como tarefa assumida.
 Durante o populismo de Vargas o país passou por várias transformações no campo social e cultural, com metas e desenvolvimento em questões ligadas a modernidade, como também as primeiras medidas de implementação de políticas culturais. O Ministro de Educação e Cultura na época era Gustavo Capanema, que convidou Mário de Andrade para elaborar o tal anteprojeto para a criação do órgão de patrimônio, entregue em 24 de março de 1936, assim sendo, algumas das primeiras medidas de institucionalização da ação do Estado sobre a cultura, ocorrendo no campo do patrimônio em 1936 com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Para a professora Mônia Luciana Silvestrin , as palavras que formam o termo “patrimônio cultural” explicitam os sentidos básicos para a compreensão do que se trata esse conceito. A primeira nos remete à ideia mesma de valor, algo importante, que se acumula e transmite através do tempo e das gerações, que se constitui como “herança”. Assim ela indaga: Mas qual herança? De quem para quem? De acordo com Mônia, a construção para a ideia de patrimônio cultural se deu no bojo de dois processos históricos muito importantes para o Ocidente: a construção dos Estados-Nação europeus e a formação da História como um espaço específico do conhecimento, como ciência, ambos ocorridos entre o final do século XVIII e o XIX. Assim, para ela, não é difícil essa relação íntima entre eles: para unificar populações, culturas, território, operação imprescindível na construção dos Estados contemporâneos.
Dessa forma, foi preciso construir a própria ideia de “nação”, que se fundamenta em alguns elementos estruturantes: um conjunto de pessoas que partilha de uma mesma cultura, uma língua, uma origem comum, experiências vividas, uma única identidade, ou seja, um povo. (SILVESTRIN, Monia Silvana. Tratando de Conceitos, Patrimônio Imaterial: Fortalecendo o sistema nacional, pag 04.)
 Partindo dessa concepção, não podemos deixar de mencionar o índio, os povos indígenas, para falar de patrimônio cultural não podemos deixar de hipótese alguma de fora os nativos desse país, como também, a importância da cultura africana, como todos os grupos étnicos e sociais que contribuíram para a formação social e cultural do Brasil.
Concernentes as comunidades tradicionais, esses povos detém conhecimentos que também se formam como parte integrante de um patrimônio coletivo de culturas especificas, entretanto, para Rosimeire Melo e Rita de Cássia os sujeitos ao agirem com/sobre os meios onde vivem, recriam seu cotidiano e estabelecem territorialidades, na acepção de conferir à extensão do território apropriado e usado, por uma dada população, características de exclusividade. Tem estudos sobre comunidades tradicionais, que o foco quase sempre se refere a exploração econômica dos conhecimentos tradicionais, sem demonstrar qualquer interesse pelas comunidades tradicionais em si. De acordo com Luciano Santana e Thiago Oliveira, acredita-se não existir conflitos entre se proteger os bens ambientais quanto os culturais materiais em relação ao patrimônio cultural imaterial decorrente de populações tradicionais, tendo em vista que essas comunidades também integram o meio ambiente no aspecto cultural, sendo consideradas elementos integrantes da paisagem e não indivíduos que somente estariam ocupando ou usufruindo certo bem ambiental como um espaço cultural protegido.
Conforme Souza e Costa (2011), o estabelecimento da territorialidade é compreendido enquanto relações existentes entre uma comunidade e seu patrimônio ecológico e sua herança social.  Para Haesbaert (2007, p. 25), no âmbito da antropologia está territorialidade que é simbólica e permeia as distintas culturas e formas de organização social, orienta maneiras próprias de conceituar, interpretar e agir sobre a natureza. Ela é a dimensão simbólica ou identidade territorial. (apud, SOUZA, Rosimeire Melo, SILVA, Rita de Cássia).
Sendo assim, o patrimônio cultural reúne diversas áreas do conhecimento, propiciando encontros entre diversos campos dos estudos culturais e sociais.

Rio de Janeiro, 14 de agosto de 2014.

Marcos Paulo Carvalho Lima
Pesquisador

Fontes Consultadas:
LIMA, Marcos Paulo Carvalho. Monumentos históricos e culturais de Aracaju: um breve histórico. / Marcos Paulo Carvalho Lima. – São Cristovão, 2013. 86f.
SANTANA, Luciando Rocha e OLIVEIRA, Thiago Pires. O patrimônio cultural imaterial das populações tradicionais e sua tutela pelo Direito Ambiental.
SILVESTRIN, Monia Silvana. Tratando de Conceitos, Patrimônio Imaterial: Fortalecendo o sistema nacional.
SILVA, Maria do Socorro Ferreira e SOUZA, Rosemeri Melo. Unidades de conservação como estratégia de gestão territorial dos recursos naturais

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Culinária como referência cultural


Culinária como referência cultural




Os saberes e fazeres dos mais diversos pratos da culinária brasileira estão ligados aos aspectos socioculturais de nossa história, sobretudo, aos encontros entre várias culturas ao longo do tempo. Sendo assim, recebemos a influência de outros povos que aqui estiveram, nos deixando legados que hoje fazem parte do nosso patrimônio cultural.
Os índios e os africanos são grupos étnicos que contribuíram incomensuravelmente para a formação das identidades culturais do país. Não há como falar de história, memória e patrimônio cultural, sem mencionar a figura desses povos. Em nossa gastronomia, podemos perceber claramente no preparar dos alimentos, as maneiras de servir e de comer. Não obstante, a contribuição deixada pelos europeus, principalmente, os portugueses, como de outros grupos étnicos e sociais A união desses grupos criou uma cozinha tipicamente brasileira.
 A diversidade presente no meio ambiente propicia uma gama de receitas em nossa culinária, como por exemplo, a farinha de mandioca, tão popular entre o povo, de qualquer classe social, sendo uma herança indígena que através de sua matéria prima, diversos alimentos são criados e recriados.
O reconhecimento e a valorização do alimento pelo seu caráter simbólico, nos traduz a comida enquanto um elemento de referência cultural. Assim, a gastronomia é parte desses processos culturais para entender a nossa identidade. Como também, a noção que podemos denominar como bem cultural imaterial uma ou mais culinárias, a depender de sua identificação.
Cada cultura gera uma gastronomia tradicional, com suas peculiaridades presentes em todas as receitas. Os saberes e fazeres em torno da comida é objeto de registro enquanto patrimônio imaterial, e não a comida em si. A mistura dos alimentos e o encontro de diversas tradições culturais fazem a inter-relações entre os aspectos culturais e simbólicos a partir do preparo dos alimentos. (AGUIAR, Janaina Couvo. Identidade, Patrimônio Cultural e Comida).
Através do decreto nº27.720, de 24 de março de 2011, Sergipe reconhece algumas comidas, a saber: a  queijada, o manauê, o beiju de tapioca, a bolachinha de goma, o doce de pimenta do reino, o pé-de-moleque de massa de puba, o amendoim verde cozido, o macasado e o saroio. Concernente ao Amendoim Verde Cozido, temos outro instrumento de salvaguarda que é a Lei nº7.682, de 17 de julho de 2013, que torna Patrimônio Imaterial de Sergipe e dá outras providências correlatas.
(...) Conforme estudos realizados pela pesquisadora Ana Maria Medina, a Cultura alimentar é fator de identificação das comunidades. Os alimentos encerram em si mesmos as histórias dos ritos e de suas culturas, sendo, portanto, pertinente sua classificação como bem imaterial.  No Brasil, a mistura de etnias criou uma culinária plural com marcas indígenas, africanas e européias. O colonizador não fugiu ao processo de aculturação, encontrou as nossas farinhas nativas e com elas adaptou às suas receitas.(...)
        Como descreve a pesquisadora, Sergipe recebeu de forma efetiva em sua culinária a influência da cozinha indígena, da cozinha proveniente dos engenhos-casa grande e senzala e da culinária conventual, freirática, com doces, sequilhos e licores, etc.
Ao falar de comidas típicas do Brasil, lembramos logo de uma raiz bem genuína,  a mandioca. Através dela várias receitas são produzidas e estão ligadas a certos espaços geográficos. A mandioca está presente de norte ao sul do país, possui grande importância histórica e cultural, sendo fundamental por um longo período, na alimentação dos nativos como também dos europeus. Vários pratos são preparados provenientes dessa matéria prima, como o beiju, considerado o pão dos índios brasileiros. Diversos tipos e sabores de beiju eram preparados pelos nativos.

            Uma variedade de alimentos tradicionais são vendidos em feiras livres e algumas dessas culinárias possui um caráter de identificação local. Quando falamos de queijada em Sergipe, por exemplo, nos reportamos logo a São Cristóvão. Isso não quer dizer que a queijada é comercializada somente nesse município. No entanto, os modos de fazer queijada e bolachinha de goma de São Cristóvão, são as que foram consideradas patrimônio cultural sergipano, dentro das comidas selecionadas no Decreto 27.720. Por exemplo, no município citado temos três grandes famílias que produz a Queijada, na Avenida Lourival Batista, conhecida como Colônia Pintos, com a família de Dona Maria, na Ilha Grande com Dona Madalena, e no Povoado Pedreiras com a família de Dona Maria de Neném da Padaria Colonial. No Centro Histórico de São Cristóvão, temos a Casa da Queijada de Dona Marieta, que além de fabricar também comercializa. 
             A comida tem o poder de nos transportar rapidamente ao passado. Provoca a nossa memória, nos traz lembranças principalmente através dos sabores e dos cheiros. Quem nunca comeu algo e lembrou mamãe, vovozinha, titia fulana de tal? Mas, quem nunca comeu algo e lembrou uma localidade, um povo? Porém, quando a lembrança é coletiva, nos faz identificar a tamanha referência cultural de um bem, e por ai, passamos a denominá-lo como patrimônio cultural após o reconhecimento.

Aracaju, 17 de julho de 2014.

Marcos Paulo Carvalho Lima
Pesquisador



Referências Bibliográficas:
CASCUDO, Luiz Câmara. História da Alimentação no Brasil. 1968
FREIRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. 1933
Fontes Consultadas:
Decreto nº27.720
Lei nº 7.682
Processo nº027.000.000.32/2009/SEC

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Barco de Fogo, um espetáculo do ciclo junino considerado patrimônio cultural sergipano



* Marcos Paulo Carvalho Lima


As festividades juninas foram trazidas para o Brasil pelos portugueses durante o período colonial. Os países de origem católica louvavam e homenageavam o São João, por isso, a festa também é conhecida como Joanina. No Brasil, têm grande influência agrária, está ligada a zona rural, a terra e à sua fertilidade, como nos conta os pesquisadores Roberto Benjamim e Aglaé D’Ávila, em São João Dormiu e São Pedro Acordou. Aliás, fonte bibliográfica para esse diálogo.
Trazido para o Brasil por influência portuguesa, o festejo é resultante da aglutinação dos cultos pagãos em louvor a terra como a data de nascimento do santo católico João, que foi preparador da vinda de Cristo. Do ambiente rural passou para a cidade. Nela se procura, entretanto, sempre reviver os costumes rurais[1]. Daí os trajes, a comida, a música, a dança, entre outros aspectos da cultura que remontam o passado ao presente.
[2]O mês de junho é momento de homenagear principalmente três santos católicos: Santo Antônio São João e São Pedro. Como é uma região onde a seca é um problema grave, os nordestinos aproveitam as festividades para agradecer as chuvas raras na região, que servem para manter a agricultura.
O fogo simboliza a purificação e há os que afirmam que “as almas danadas serão consumidas pelo fogo do inferno”. O fogo é considerado também como uma representação do sol e sua utilização é milenar. Chineses, indianos, e árabes já usavam o fogo nos seus festejos (São João Dormiu São Pedro Acordou, pg. 08.)
Concernente à conservação ambiental e a relação homem e natureza, nos fala Roberto sobre a passagem do homem da vida rural para a urbana: O homem é, porém, parte da natureza e ao construir uma cultura que o distancia dela, se violenta. Assim diz que a retomada de um calendário construído sobre os ciclos naturais, marcando as variações culturais do tempo e do lugar, é uma aspiração que se baseia não apenas em um sentimento de saudade, de evocação de um tempo perdido, mas se adequação da vida urbana a uma cultura que não se afaste o homem da natureza. (Roberto Benjamin, A Religiosidade Popular e o Folclore do Ciclo Junino, São João Dormiu, São Pedro Acordou)  
O fogo é um louvor, e a fogueira é um dos símbolos que mais referencia o mês de junho. Os fogos de artifício, os foguetes, as espadas, os busca-pés, as chuvinhas, o peido de veio, entre outros, são parte desse momento tão precioso para o povo nordestino.  Tirando os perigos e os cuidados a serem tomados, complementam a alegria dos festejos do ciclo.
Durante o mês de junho, três santos são festejados como mencionado anteriormente, Santo Antônio, São João, São Pedro, porém, temos o esquecido São Paulo, comemorado no dia 29. Só que, não podemos esquecer também que apesar do São José não datar do mês de junho, faz parte do ciclo junino, pois, em seu mês, inicia a plantação do milho, por exemplo. Conforme a tradição religiosa é preciso chover no Dia de São José, para que o ano seja bom em termos de chuva e a colheita satisfatória. Sabemos que a louvação é mais presente na crença católica dessa época, mas, não podemos deixar de fora toda a religiosidade popular que envolve também os grupos folclóricos com influências de outros grupos étnicos e sociais.  
Sem dúvida o mês de junho é o tempo mais esperado pelos nordestinos. É uma época de religiosidade popular, de manifestações da cultura tradicional: culinária, artesanato, quadrilhas juninas. É época do Barco de Fogo!!!!! De Estância para Aracaju, entre outros municípios sergipanos.
Quando se fala em festejos juninos em Sergipe, é impossível mesmo com o Forro Caju e o Arraial do Povo, não mencionar o São João em Estância (São João de Estância), destaque da história e cultura junina do Estado. As manifestações em torno do ciclo junino iniciam-se com o envolvimento dos homens brincantes e os fogueteiros, no Batuque do Pisa-Pólvora e na fabricação dos Busca-Pés. Todo esse preparativo se dá no mês de janeiro para fevereiro, quando o bambu é cortado.
Esses brincantes em sua maioria integram profissionalmente as duas associações de fogueteiros do município e/ou participam de grupos folclóricos, como: Batucada e Batucada Busca-Pé.
Referente ao barco de fogo, propósito maior desse diálogo, é um bem histórico e cultural feito artesanalmente, de cunho tradicional ligado ao ciclo junino. Produzido exclusivamente em Estância. O bem cultural em sua origem data do inicio do século XX, criado por Chico Surdo. De acordo com Ronaldo(Roni), fogueteiro nascido no município e há 30 anos está no meio dos fogueteiros, não se tem precisão quando iniciou a produção do barco de fogo, mas, é uma tradição que se arrasta por décadas, passando de geração em geração. A transmissão do saber e fazer o barco de fogo é tradicional em Estância: Os pais vão passando conhecimento da produção de fogos para os filhos, parentes, os ajudantes, como também aqueles que estejam no meio e se interessem pela produção do bem cultural. Roni tem quatro ajudantes que já são fogueteiros profissionais. Para ser considerado fogueteiro profissional tem que saber fazer “tudo relacionado ao fogo”. Primeiro passa por ajudante, depois se torna um profissional do ramo. Para isso, tem que ter capacidade e compromisso! Afirma o fogueteiro Ronaldo.
Em Estância existem duas associações. Para ser considerado um fogueteiro profissional tem que passar por alguns testes. Após avaliação e aprovação, se afilia a associação envolvida, e, é considerado um fogueteiro profissional. Em conversa com Valdivino Menezes, Presidente da Associação de Fogueteiros e Barqueiros de Estância, o dia 11 de junho é um momento importante para os estancianos, é o dia do Barco de Fogo, e, nos faz lembrar o seu fundador, Chico Surdo, porém, nos dias 23 e 24 é onde acontece a nossa festa maior, tem a procissão dos grupos folclóricos, o casamento, os fogos de artifício e a apresentação do Barco de Fogo.
A maior tradição de Estância na área de fogos é o Busca-Pé, onde o barco de fogo está ligado diretamente. Não tem barco de fogo sem Busca-Pé!
Para a produção desse bem histórico e cultural, ocorrem vários processos que vai da aquisição da taboca, corte do bambu, exposição do mesmo ao sol, entre tantos procedimentos que envolvem a parte estética ao formato do bem cultural, que em sua essência é um Barco, porém, podendo representar um avião, um ônibus, por exemplo.
O Poder Público Estadual reconhece o Barco de Fogo como patrimônio cultural do povo sergipano, através da Lei 7.690. O dia 11 de junho é considerado como o Dia do Barco de Fogo, data de nascimento de seu criador, Chico Surdo, e, faz parte do calendário cultural do município de Estância.
Sendo assim, a Subsecretaria de Estado do Patrimônio Histórico e Cultural/SUBPAC, vem realizando estudos visando o registro de bens considerados patrimônio imaterial e/ou intangível do Estado. Esses estudos não objetivam somente a inscrição dos bens culturais reconhecidos em respectivos Livros, mas, principalmente desenvolver medidas e instrumentos que visem à promoção e salvaguarda, para que gerações futuras possam desfrutar e vivenciar essas culturas.

Fontes e Textos visitados:
O São João na Estância. Ofenísia Soares Freire
A Batucada do Pisa. Aglaé D’Ávila Fontes
Jornal Folha Trabalhista, Estância/SE. 1971 e 1972



*Marcos Paulo Carvalho Lima
Pesquisador


[1]  FUNDESC, São João Dormiu, São Pedro Acordou. Aracaju 2014.


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Bens Intangíveis e os procedimentos de patrimonialização

http://www.faxaju.com.br/conteudo.asp?id=183574

http://maxaugusto.hospedagemdesites.ws/post.aspx?id=2874

*Marcos Paulo Carvalho Lima

As manifestações artísticas e culturais de cunho tradicional existem desde os primórdios da construção da nação brasileira, com contribuição dos nativos brasileiros, africanos, europeus, asiáticos, entre outros grupos étnicos que se fazem presente hoje no que chamamos de brasilidade. Porém, os três primeiros percebe-se com mais evidência no cotidiano da nossa sociedade.

A cultura popular tradicional, que envolve o folclore, os folguedos populares, as quadrilhas juninas, o artesanato, os estilos arquitetônicos da religiosidade católica, barroca, as com influência árabe, a culinária, são elementos formadores do patrimônio histórico e cultural brasileiro.

Para que as novas gerações possam desfrutar e apreciar essas culturas, é preciso que o poder público desenvolva mecanismos e programas, que visem à salvaguarda desses bens relativos: a religiosidade, as formas de sociabilidade, os modos de saber e fazer, os relacionados ao meio ambiente, entre outros, faz-se necessário ações de produção de conhecimento e documentação, de sensibilização da sociedade, e instrumentos que visem promoção e apoio as condições sociais e econômicas.

As primeiras medidas para o reconhecimento de um bem como patrimônio cultural, é o encaminhamento de propositura ao Conselho Estadual de Cultura, onde devem conter, introdução, justificativa, documentação iconográfica, vídeos, entre outros meios que subsidiem o pedido, podendo ser feito por órgãos públicos, cidadão, organização da sociedade civil, associações, etc.
Prosseguindo, é feito analise pelos conselheiros, emissão de parecer pelo relator/a indicado, após aprovação, se for o caso, encaminhado para a Secretaria de Governo, a fim de elaboração de Decreto Governamental e publicação no Diário Oficial.

O Governo do Estado de Sergipe, reconhece através de Decretos e Leis, alguns bens intangíveis como Patrimônio Imaterial Sergipano, a saber: A Taieira e o São Gonçalo, ambos do município de Laranjeiras; O Barco de Fogo de Estância e algumas comidas típicas da culinária sergipana(Amendoim Verde Cozido, Doce de Pimenta do Reino, Pé de Moleque de Massa de Puba, Manauê, Bolachinha de Goma e Queijada de São Cristóvão, Macasado, O Beiju de Tapioca e o Saroio) e a Festa Senhor dos Passos que já tem processo de registro aprovado pelo Conselho Estadual de Cultura.

Para tanto, a Subsecretaria de Estado do Patrimônio Histórico e Cultural, órgão responsável pelos estudos, pesquisas, inventários e o registro de bens reconhecidos pelo Poder Público Estadual, em respectivos Livros, realiza pesquisa de campo, filmagens, entrevistas, encontros, registros fotográficos, estudos bibliográficos, elaboração de textos, sistematização de informações, inerentes aos bens culturais citados. Isso são procedimentos técnicos que chamamos de patrimonialização de um bem histórico e cultural.

A SUBPAC também é uma das instituições responsáveis pelas políticas de salvaguarda para o patrimônio cultural sergipano.

Por isso, a necessidade de estudos aprofundados sobre os bens culturais que possam identificar um povo e/ou uma comunidade, através do que chamamos de “procedimentos de filtragem”, observar a referência cultural de bens intangíveis. É base fundamental para as noções e conceitos de patrimônio imaterial.

*Marcos Paulo Carvalho Lima
Pesquisador

sexta-feira, 7 de março de 2014

Carnis Levale ou Carna Vale e Divindade, para Manifestações Artísticas e Culturais

http://www.jornaldodiase.com.br/noticias_ler.php?id=9820

http://www.passeiaki.com/noticias/carnis-levale-carna-vale-divindade-para-manifestacoes-artisticas-culturais-ensaio-trabalho

Apesar do carnaval brasileiro a exemplo de Salvador e Rio de Janeiro ser considerada a maior festa popular mundial, tornando um dos eventos mais difusores das culturas nacional, a história sobre essas festividades remontam à antiguidade.

Originária do latim, carnis levale, cujo significado é “retirar a carne”, conforme pesquisa realizada, o significado está relacionado com o jejum que deveria ser realizado durante a quaresma e também com o controle dos prazeres mundano. Sobretudo, isso demonstra uma tentativa da Igreja Católica de enquadrar uma festa pagã.

Duas festas antigas ligam o carnaval como caráter de subversão de papéis sociais, exemplo: na Babilônia era uma festa que um prisioneiro assumia durante alguns dias a figura do rei, chamada de As Saceias, vestiam-se como o rei alimentando-se da mesma forma e dormindo com suas esposas. Segundo informações adquiridas através de pesquisas, ao final o prisioneiro era chicoteado e depois enforcado ou empalado. O outro rito, era realizado pelos reis nos dias que antecediam o equinócio da primavera, período de comemoração do ano na região. Era uma humilhação onde o rei pedia seus emblemas do poder ao templo Marduk, um dos primeiros deuses mesopotâmicos. Tal humilhação servia para demonstrar a submissão do rei a divindade. Havia festas marcadas por orgias embriaguez e entrega aos prazeres da carne.                                       ( www.brasilescola.com/carnaval/historia-do-carnaval.htm‎)

A partir do século VIII, com a criação da quaresma a Igreja Católica buscou então adaptar e/ou enquadrar tais comemorações. Dessa forma, a igreja pretendia manter um período para as pessoas cometerem seus excessos, antes do período de rispidez religiosa. O carnaval é celebrado quarenta dias antes da Páscoa, desde o século XI. Este período é chamado pela Igreja Católica de Quaresma, que preserva quarenta dias de jejum, com abstinência de carne.
No Renascimento, cidades européias como as italianas, vestimentas e máscaras marcavam uma nova época concernentes as festas populares dessa natureza.
No Brasil, os estudos mostram que o carnaval chegou em meados do século XVII, sob influências das festas carnavalescas que ocorriam na Europa. Certos personagens tem origem européia, porém, foram incorporados caracteres referentes ao modo brasileiro.

A partir do século XX, os primeiros blocos carnavalescos brasileiro aconteciam com destacados cortejos de automóveis decorados, identificando a manifestação artística e cultural. No decorrer do século houve um crescimento, principalmente com o surgimento das marchinhas, que animavam ainda mais o povo. A primeira escola de samba criada foi no final da década de vinte no Rio de Janeiro. Iniciou com a “Deixa Falar”, chamada posteriormente de Estácio de Sá. Como no Rio, em São Paulo o carnaval ascendeu mais com o surgimento de escolas de samba, onde em seguida se escolhia a Escola mais bonita e animada.
Para Juliana Ribeiro, ao se falar de samba é bom deixar claro que não estamos falando de gênero musical, mas sim de manifestação cultural[1].

Em 1933 foi feito o primeiro desfile oficial de escola de samba na Praça XI, o evento então passou a ser anual. Negro na essência foram necessários trinta anos após seu surgimento no Rio de Janeiro para o samba ganhar notoriedade mundo a fora e virá paixão nacional. Justamente cerca de quarenta anos depois das primeiras músicas criadas para os desfiles carioca que os sambas enredo começaram a abordar a cultura africana e exaltar os personagens negros no Brasil.[2] 

O jornalista, pesquisador e compositor da música popular brasileira Sérgio Cabral lembra que ate o fim da década de cinqüenta os sambas tinham em seus desfiles personagens da história oficial, a partir dos anos 60 que os enredos ficaram mais progressistas(Sérgio Cabral).[3]

Segundo o compositor, radialista e pesquisador da cultura negra Rubem Confete foi o carnavalesco Fernando Pompona o grande responsável por dar dignidade a história do negro brasileiro por meio de uma série de enredos, foi no carnaval de 1960 que Pompona fez de Zumbi dos Palmares o primeiro personagem não oficial da História do Brasil tema de uma escola de samba. O enredo que encantou Zumbi, vários sambas exaltaram a cultura negra, mas segundo o historiador e pesquisador Ricardo Cavaubim o grande momento da negritude viria em 1988 com o desfile da Vila Izabel também em homenagem a Zumbi dos Palmares. Temas como apartheid, abolição da escravatura, as expressões do candomblé e os rituais da cultura negra são citados no samba.[4]

Atualmente as músicas dos sambas de carnaval não está mais no cotidiano popular do carioca como antigamente, com isso, voltam com grande força os blocos de ruas do Rio de Janeiro.
Já na região nordeste eram apresentados grupos tradicionais com peculiaridades de cada local, originais do carnaval de rua como em Pernambuco, mais precisamente em Recife e Olinda. Em Pernambuco os bonecos gingantes são marcas de referência local, animando os foliões, tendo o Galo da Madrugada como grande atração.

Na Bahia temos um dos mais animados carnaval do Brasil e do mundo, mais especificamente na capital Salvador. O valor histórico e a importância sociocultural na Bahia é a luta das entidades de Matriz Africana, reconhecida pela preservação da herança da cultura afro no carnaval de Salvador, citado pelo SEBRAE Bahia, e sem dúvida apoiada pela sociedade baiana e soteropolitana. O Ilê Aiyê é o mais antigo bloco afro de Salvador.

“O Carnaval, para nós, era importante. Era algo que assumíamos com um aspecto tradicional muito forte. Por conseguinte, os cantares do carnaval animaram-nos informaram-nos e educaram-nos”(apud Carnaval Ouro Negro, 2011, 3ª Edição; Bonga, músico angolano).

[5]Entre diversas referências estéticas do mundo negro, o carnaval é talvez um dos mais importantes ícones da criatividade cultural do Ocidente. Os carnavais atlânticos mostram a extraordinária riqueza deflagrada pela diáspora africana e o vigor de sua produção cultural.

No ano de 2010, quando o desfile dos afoxés, os chamados “Candomblés de Rua”, foi considerada como Patrimônio Imaterial da Bahia, também foi uma data marcante na história do carnaval da cidade de Feira de Santana.

Umas das maiores lutas do blocos afros, é levar a sua cultura para avenida nos desfiles de carnaval e então acabar com os mitos que envolvem a religião de matriz africana. Por exemplo, o Afoxé Pomba de Malê é uma homenagem à senhora Ernestina Carneiro, mas conhecida como Dona Pomba, e a revolta dos Malês. O bloco foi fundado com o intuito de preservar a cultura musical local, principalmente o Ijexá.

Elementos da cultura indígena também se fazem presente nos carnavais do país, temos como exemplo: o Apache do Tororó, que é o mais antigo bloco brasileiro de inspiração indígena do carnaval de Salvador. O bloco foi inspirado especificamente nas tribos indígenas dos filmes americanos “ Os Apaxes do Tororó”. O bloco sai as ruas com o objetivo de manifestar a histórica exploração sofrida pelos povos indígenas e negros.

No caso de Sergipe, o município de Estância, ocorrem desfiles de blocos carnavalescos, Escolas de Samba, concurso de marchinha de carnaval e shows com bandas de frevo. Outra cidade histórica cheia de alegria durante o período carnavalesco e muito contagiante, ao som do Frevo, é Neópolis, que atrai milhares de foliões durante período carnavalesco, fazendo o município ser considerado hoje como a Capital Sergipana do Frevo.

 Aracaju, por exemplo, segundo pesquisadores, existem registros sobre o carnaval em nosso estado, desde o final do século XIX, quando ocorreu o desfile dos primeiros clubes carnavalescos da cidade.
Os blocos estão presentes no carnaval aracajuano desde o início da década de 20, onde em cada bairro da cidade, era possível encontrarmos a presença de pequenos grupos que organizavam seus blocos de rua para brincar o carnaval.

Atualmente a cidade conta com um pouco mais de 250 blocos e escolas de samba que estão organizados através de representações, como: a Liga Oficial Sergipana do Carnaval, Associação de Blocos Carnavalescos e Federação de Blocos Carnavalescos e Escolas de Samba que ao meu perceber e entender dificulta as relações, cria intrigas e divergências entre os lideres de cada entidade e grupos, fazendo com que a organização num contexto geral, no sentido harmônico da coisa, entre as partes envolvidas com o brincar, se torne praticamente impossível, o que promove conflitos que vão além dos interesses coletivos.

Marcos Paulo Carvalho Lima
Pesquisador

FONTES CONSULTADAS:


______Documento para o Plano Municipal de Cultura de Aracaju, Blocos Carnavalescos e Escolas de Samba. Aracaju, 2012.

_____ Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, Carnaval Ouro, Secretaria de Promoção da Igualdade, Negro, 2011, 3ª Edição

______Secretaria de Promoção da Igualdade, Carnaval no Feminino, Salvador/Bahia, 2010.






[1] Juliana Ribeiro é cantora, compositora, historiadora e pesquisadora musical.
[3] Ibidem
[4] IBID.
[5] Carnaval Outro Negro, 2011, 3ª Edição, pg 21.