Os
folguedos são festas de caráter popular cuja principal característica é a representação
teatral, a dança, os cantos e a música. A maioria dos folguedos possui origem
religiosa e raízes culturais dos povos que formaram a nossa cultura (indígenas,
africanos e portugueses). No entanto, muitos folguedos com o passar dos anos
foram incorporando mudanças culturais e adicionando, às festas, novas coreografias,
vestimentas e indumentárias, integrando ao folclore brasileiro. Em quase todo o
território brasileiro pode se encontrar folguedos, porém, é no nordeste que se
fazem mais presentes.
Para
a antropóloga Beatriz Góis Dantas, com relação às expressões artísticas
procedentes da cultura dos escravos, encontraram na música e na dança um
substituto para as liberdades políticas formais que lhes foram negadas. Como
ressalta Paul Gilroy(2001, p.129) “ a arte se tornou a espinha dorsal das
culturas políticas dos escravos e de sua história cultural” e até hoje
representa um poderoso instrumento no processo de comunicação social dos
descendentes africanos com os demais segmentos sociais. A dança ritual das Taieiras,
executada no contexto das festas de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário,
cujo conteúdo cultural aparece associado à devoção dos santos negros.
As
culturas expressivas negras-em especial a música e a dança – participaram
ativamente de história cultural e política dos africanos e de seus descendentes
no Brasil. As manifestações do chamado folclore negro, a exemplo da taieira,
congada, maracatu, lambe-sujo, etc, são parte construtiva da nossa memória
coletiva, expressões culturais sem as quais dificilmente saberíamos o que fomos
e o que nos tornamos como povo e como nação. Na base desses repertórios
teatral, cênico e musical, iremos encontrar formas culturais híbridas ricas em
simbolismo e significado. (DANTAS, Beatriz, A Taieira de Sergipe).
Os
folguedos se apresentam em toda época do ano, porém, após o período junino,
inicia-se outro momento que segue até o ciclo natalino, como dizia o
folclorista brasileiro, membro fundador da Comissão Nacional do Folclore,
Teothônio Vilela Brandão: “Ao apagar das
fogueiras juninas, inicia-se o período de ensaios para os vários folguedos
natalinos. Em diversas regiões do Estado de Alagoas, aos sábados e domingos,
reúnem-se mestres, tocadores, ensaiadores e brincantes para os ensaios desses
grupos, geralmente realizados ao lado de bodegas, onde o proprietário consegue
recursos para o traje da brincadeira”. (BRANDÃO, Théo, Folguedos Natalinos).
Taieira-folguedo
de caráter extremamente religioso, no entanto tem seu lado profano, dada a
lascivicidade característica da coreografia de determinadas estrofes das
músicas que são cantadas. Taieira é uma corruptela variante das Talheiras,
dança em que eram comum o uso de talhas como elemento básico da coreografia e
ritual. No Brasil a sua presença teve registro na Bahia a partir do século
XVIII. É um folguedo que, pelas análises pode-se afirmar como de origem
afro-luso brasileira porque se apóia no elemento aculturativo. O seu objetivo é
a louvação, e esses louvores são dirigidos a Nossa Senhora do Rosário e a São
Benedito, ou mais precisamente, A Nossa Senhora do Rosário, vencedora de
Loponto e igualmente protetora dos escravos. LARANJEIRAS:
“um museu a céu aberto”, Banco do
Nordeste do Brasil S.A, Fortaleza. 1983.
A
Taieira de Laranjeiras surgiu em meados do século XIX, com a avó e a mãe de Dona
Bilina, herdeira da tradição religiosa africana Nagô de Ti Herculano, que passa
a liderar a taieira por volta de 1902/1903. Dona Bilina faleceu em 27 de
setembro de 1974, em seguida a taieira fica sob a liderança de Dona Maria de
Lourdes Santos, que veio a falecer em outubro de 2002. Após o falecimento de
Dona Lourdes, sua filha Bárbara Cristina dos Santos passa a liderar o grupo, a
partir de janeiro de 2003. A Taieira de Laranjeiras é reconhecida como
Patrimônio Imaterial Sergipano, através do Decreto nº 29.558, de 23 de outubro
de 2013.
O
grupo é pertencente ao ciclo natalino, sai em cortejo pelas ruas de
Laranjeiras, e quando são convidadas a participar de eventos e/ou encontros
onde ocorrem manifestações da cultura tradicional. Fazem parte do grupo a
Rainha, reminiscência dos antigos reis de Congo, acompanhada dos seus
ministros, capacetes e dançarinas, em direção à igreja onde é celebrada a
grande Missa de dia de Reis. A coroação da Rainha da Taieira é uma cerimônia
que se repete a várias décadas seguindo o mesmo ritual. No final da missa o
padre celebrante retira a coroa da imagem de Nossa Senhora do Rosário e coloca
na cabeça da Rainha da Taieira. Nesse momento os sinos da igreja tocam, fogos
estouram e os grupos folclóricos dançam e cantam louvores para os Santos e para
a Rainha da Taieira. É uma manifestação de muitas cores, cantos e danças, uma
hibridização do sagrado e do profano bem marcante da cultura afro-brasileira,
como também, manifestada no catolicismo popular nordestino. Caracterizado pelo
seu cunho estritamente ritualista, colocando acima de simples manifestação
figurativa e teor místico dos cultos afros. A sua coreografia é de uma
simplicidade singular e, acrescido do colorido das vestes e adereços dos
participantes.
Atualmente
compõem a Taieira de Laranjeiras: Taieiras/dançarinas 23, Guias 02, Rainhas 02,
Lacraias, 02, Rei 01, Ministro 01, Capacete 02, Patrão 01, totalizando 34
componentes. Há uma variação no número de participantes, isso depende do dia e
momento da apresentação. A cada ano pode mudar a quantidade de componentes do
grupo. Normalmente as crianças ingressam no grupo com 03 anos de idade e a
faixa etária vai até os 80 anos.
O
dia 06 de janeiro tem sido sempre salientado no calendário da cidade de
Laranjeiras, aí celebra a festa de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário,
cultuada pelas pessoas mais devotadas e sensíveis aos rituais e tradição. A
comemoração contém um caráter acentuadamente popular, evidenciando o festejo da
Taieira, cujo feitio peculiar, revela a presença de uma continuidade cultural.
(DANTAS, Beatriz Góis).
Para
Dantas, a temática das cantigas da Taieira é bastante rica prendendo-se ora a
motivos profanos, ora a motivos religiosos refletindo os anseios e situações sociais
do passado e do presente, através dos cantos. A coordenadora e organizadora da
Taieira de Laranjeiras é Dona Cisa(Maria do Espírito Santo), tutora de Bárbara
e responsável por cuidar do material, tem a função de confeccionar as
indumentárias, adereços, entre outros materiais que compõe a parte tangível do
bem cultural.
Como
disse um dos maiores pesquisadores e folclorista que Sergipe já teve e tem a
Honra de fazer parte de sua história, Luiz Antônio Barreto, O folclore sergipano, não perdeu, de modo
algum, a sua importância como livro pioneiro, na sistemática da cultura
popular, seguindo trilhas abertas por Sílvio Romero, a partir da década de 70
do século XIX, João Ribeiro, a partir do curso ministrado na Biblioteca
Nacional do Rio de Janeiro, em 1913, Clodomir Silva, como o clássico Minha
Gente, de 1922. Paulo de Carvalho-Neto, cuja biografia de antropólogo está
repleto de livros, antigos comentários em diversos países da América Latina,
nos Estados Unidos e no Brasil, ocupa lugar destacado também em sua terra
natal, pelo valioso livro que dedicou ao folclore de Sergipe. Incluo nesse
hall de renomados estudiosos, o historiador e folclorista José Calazans, a
professora Aglaé D’Ávila Fontes e a professora Beatriz Góis Dantas, pelas diversas
obras, publicações e textos dedicados até os dias atuais, a história e a
cultura sergipana.
A Taieira de Laranjeiras é um bem
cultural que o Estado de Sergipe reconhece através do Decreto nº 29.558, de 23
de outubro de 2013, encontra-se em processo de estudos pelo órgão que cuida do
patrimônio histórico e cultural de Sergipe, visando à inscrição num Livro de
Registro como Formas de Expressão, após a elaboração e publicação de um Decreto
que cria os supracitados Livros de Registro e o Programa Estadual de
Salvaguarda do Patrimônio Imaterial. A Taieira fica localizada na praça onde
ficam as ruas da Cacimba e Alegria. O Bem cultural não tem nenhuma fonte de
renda voltada a preservação do grupo folclórico. É importante a criação de
mecanismos que vise à manutenção do grupo. Não é fácil manter um grupo
folclórico! É necessário que os poderes públicos e privados olhem mais para
esses grupos, pois, eles salvaguardam parte de nossa história e memória.
Marcos Paulo
Carvalho Lima
Pesquisador
Licenciado em
História/UFS
Especialização
em Ensino para a
Igualdade nas
Relações Étnico-Raciais/FSLF
Fontes Consultadas:
BRANDÃO,
Théo. Folguedos Natalinos de Alagoas. Imprensa Oficial de Alagoas,
Maceió, 1961.
Maceió, 1961.
DANTAS,
Beatriz Góis, A Taieira de Sergipe:
uma dança folclórica. 2ª edição. Editora UFS. São Cristóvão/SE, 2013.
NETO,
Paulo de Carvalho. Folclore Sergipano,
2ª edição em língua portuguesa. Sociedade Editorial de Sergipe.
_______LARANJEIRAS: “um museu a céu aberto”,
Banco do Nordeste do Brasil S.A, Fortaleza. 1983.
_______Sua
Pesquisa.com-Folguedos o que são
folguedos folclóricos, natalinos, festas populares.