* Marcos Paulo Carvalho Lima

As festividades juninas
foram trazidas para o Brasil pelos portugueses durante o período colonial. Os
países de origem católica louvavam e homenageavam o São João, por isso, a festa
também é conhecida como Joanina. No Brasil, têm grande influência agrária, está
ligada a zona rural, a terra e à sua fertilidade, como nos conta os
pesquisadores Roberto Benjamim e Aglaé D’Ávila, em São João Dormiu e São Pedro
Acordou. Aliás, fonte bibliográfica para esse diálogo.
Trazido para o Brasil
por influência portuguesa, o festejo é resultante da aglutinação dos cultos
pagãos em louvor a terra como a data de nascimento do santo católico João, que
foi preparador da vinda de Cristo. Do ambiente rural passou para a cidade. Nela
se procura, entretanto, sempre reviver os costumes rurais[1].
Daí os trajes, a comida, a música, a dança, entre outros aspectos da cultura
que remontam o passado ao presente.
[2]O mês de junho é momento de homenagear principalmente três santos
católicos: Santo Antônio São João e São Pedro. Como é uma região onde a seca é um problema grave, os nordestinos aproveitam as festividades
para agradecer as chuvas raras na região, que servem para manter a agricultura.
O fogo simboliza a purificação
e há os que afirmam que “as almas danadas serão consumidas pelo fogo do
inferno”. O fogo é considerado também como uma representação do sol e sua
utilização é milenar. Chineses, indianos, e árabes já usavam o fogo nos seus
festejos (São João
Dormiu São Pedro Acordou, pg. 08.)
Concernente à
conservação ambiental e a relação homem e natureza, nos fala Roberto sobre a
passagem do homem da vida rural para a urbana: O homem é, porém, parte da natureza e ao construir uma cultura que o
distancia dela, se violenta. Assim diz que a retomada de um calendário construído
sobre os ciclos naturais, marcando as variações culturais do tempo e do lugar,
é uma aspiração que se baseia não apenas em um sentimento de saudade, de
evocação de um tempo perdido, mas se adequação da vida urbana a uma cultura que
não se afaste o homem da natureza. (Roberto
Benjamin, A Religiosidade Popular e o Folclore do Ciclo Junino, São João
Dormiu, São Pedro Acordou)
O fogo é um louvor, e a
fogueira é um dos símbolos que mais referencia o mês de junho. Os fogos de
artifício, os foguetes, as espadas, os busca-pés, as chuvinhas, o peido de veio,
entre outros, são parte desse momento tão precioso para o povo nordestino. Tirando os perigos e os cuidados a serem
tomados, complementam a alegria dos festejos do ciclo.
Durante o mês de junho,
três santos são festejados como mencionado anteriormente, Santo Antônio, São
João, São Pedro, porém, temos o esquecido São Paulo, comemorado no dia 29. Só
que, não podemos esquecer também que apesar do São José não datar do mês de
junho, faz parte do ciclo junino, pois, em seu mês, inicia a plantação do
milho, por exemplo. Conforme a tradição
religiosa é preciso chover no Dia de São José, para que o ano seja bom em
termos de chuva e a colheita satisfatória.
Sabemos que a louvação é mais presente na crença católica dessa época, mas, não
podemos deixar de fora toda a religiosidade popular que envolve também os
grupos folclóricos com influências de outros grupos étnicos e sociais.
Sem dúvida o mês de
junho é o tempo mais esperado pelos nordestinos. É uma época de religiosidade
popular, de manifestações da cultura tradicional: culinária, artesanato,
quadrilhas juninas. É época do Barco de Fogo!!!!! De Estância para Aracaju,
entre outros municípios sergipanos.
Quando se fala em festejos
juninos em Sergipe, é impossível mesmo com o Forro Caju e o Arraial do Povo,
não mencionar o São João em Estância (São João de Estância), destaque da
história e cultura junina do Estado. As manifestações em torno do ciclo junino
iniciam-se com o envolvimento dos homens brincantes e os fogueteiros, no
Batuque do Pisa-Pólvora e na fabricação dos Busca-Pés. Todo esse preparativo se
dá no mês de janeiro para fevereiro, quando o bambu é cortado.
Esses brincantes em sua
maioria integram profissionalmente as duas associações de fogueteiros do
município e/ou participam de grupos folclóricos, como: Batucada e Batucada
Busca-Pé.
Referente ao barco de
fogo, propósito maior desse diálogo, é um bem histórico e cultural feito
artesanalmente, de cunho tradicional ligado ao ciclo junino. Produzido
exclusivamente em Estância. O bem cultural em sua origem data do inicio do
século XX, criado por Chico Surdo. De acordo com Ronaldo(Roni), fogueteiro
nascido no município e há 30 anos está no meio dos fogueteiros, não se tem
precisão quando iniciou a produção do barco de fogo, mas, é uma tradição que se
arrasta por décadas, passando de geração em geração. A transmissão do saber e
fazer o barco de fogo é tradicional em Estância: Os pais vão passando conhecimento da produção de fogos para os filhos,
parentes, os ajudantes, como também aqueles que estejam no meio e se interessem
pela produção do bem cultural. Roni tem quatro ajudantes que já são
fogueteiros profissionais. Para ser considerado fogueteiro profissional tem que
saber fazer “tudo relacionado ao fogo”. Primeiro passa por ajudante, depois se
torna um profissional do ramo. Para isso, tem que ter capacidade e compromisso!
Afirma o fogueteiro Ronaldo.
Em Estância existem
duas associações. Para ser considerado um fogueteiro profissional tem que
passar por alguns testes. Após avaliação e aprovação, se afilia a associação
envolvida, e, é considerado um fogueteiro profissional. Em conversa com
Valdivino Menezes, Presidente da Associação de Fogueteiros e Barqueiros de
Estância, o dia 11 de junho é um momento
importante para os estancianos, é o dia do Barco de Fogo, e, nos faz lembrar o
seu fundador, Chico Surdo, porém, nos dias 23 e 24 é onde acontece a nossa
festa maior, tem a procissão dos grupos folclóricos, o casamento, os fogos de
artifício e a apresentação do Barco de Fogo.
A maior tradição de Estância
na área de fogos é o Busca-Pé, onde o barco de fogo está ligado diretamente.
Não tem barco de fogo sem Busca-Pé!
Para a produção desse
bem histórico e cultural, ocorrem vários processos que vai da aquisição da
taboca, corte do bambu, exposição do mesmo ao sol, entre tantos procedimentos
que envolvem a parte estética ao formato do bem cultural, que em sua essência é
um Barco, porém, podendo representar um avião, um ônibus, por exemplo.
O Poder Público
Estadual reconhece o Barco de Fogo como patrimônio cultural do povo sergipano,
através da Lei 7.690. O dia 11 de junho é considerado como o Dia do Barco de
Fogo, data de nascimento de seu criador, Chico Surdo, e, faz parte do
calendário cultural do município de Estância.
Sendo assim, a
Subsecretaria de Estado do Patrimônio Histórico e Cultural/SUBPAC, vem
realizando estudos visando o registro de bens considerados patrimônio imaterial
e/ou intangível do Estado. Esses estudos não objetivam somente a inscrição dos
bens culturais reconhecidos em respectivos Livros, mas, principalmente desenvolver
medidas e instrumentos que visem à promoção e salvaguarda, para que gerações
futuras possam desfrutar e vivenciar essas culturas.
Fontes
e Textos visitados:
O
São João na Estância. Ofenísia Soares Freire
A
Batucada do Pisa. Aglaé D’Ávila Fontes
Jornal
Folha Trabalhista, Estância/SE. 1971 e 1972
*Marcos
Paulo Carvalho Lima
Pesquisador