terça-feira, 24 de maio de 2016

A Confecção do Tapete de Corpus Christi em São Cristóvão/SE

A Confecção do Tapete de Corpus Christi em São Cristóvão/SE
A festa de Corpus Christi (O Corpo de Cristo) acontece sempre na quinta-feira após o domingo da Santíssima Trindade, seguinte ao de Pentecostes. O Corpo de Deus é celebrado no 60º dia após a Páscoa. Por esse motivo, ocorre em datas diferentes a cada ano. Neste dia, durante a procissão, o Santíssimo Sacramento é acompanhado por multidões de fiéis católicos no mundo inteiro, e no Brasil, principalmente nas cidades históricas. Antes, são celebradas missas solenes e as ruas são enfeitadas (formando tapetes) para a passagem da procissão onde é conduzido geralmente pelo pároco da cidade. Neste texto falarei sobre a produção artística dos tapetes na cidade histórica de São Cristóvão, a palavra tapete será repetida por diversas vezes.
A tradição da confecção dos tapetes surgiu em Portugal vindo para o Brasil pelos colonizadores.  Percorre as principais vias públicas seguindo recomendação do Código de Direito Canônico, onde determina ao Bispo Diocesano tomar providências para que ocorra toda a celebração, visando testemunhar a adoração e veneração para com a Santíssima Eucaristia.
No Estado de Sergipe, na cidade histórica de São Cristóvão quarta mais antiga do Brasil, a cada ano consolida essa tradição de enfeitar as ruas com belíssimos tapetes produzidos pela comunidade local. Pessoas de todas as idades começam as atividades no dia anterior, geralmente no fim da tarde, pernoitam e seguem com a produção até o fim da manhã do dia seguinte. Quem participa no dia de Corpus Christi acorda cedo para ajudar a confeccionar os tapetes pelas ruas onde a procissão vai passar. São feitos nas principais ruas do centro histórico da cidade. É uma ação coletiva, liderada pela são cristovense Vânia Correia, que coordena há dez anos toda a confecção em São Cristóvão, da elaboração do projeto que conta com vários patrocinadores e apoiadores à execução, principalmente na aquisição dos materiais. É um trabalho que requer muita dedicação e sensibilização.
Este ano a procissão percorre as seguintes ruas do Centro Histórico, a saber: Largo da Matriz, Tobias Barreto, Praça do Carmo, Messias Prado, Prof. Leão Magno, Almirante Aminta Jorge, Largo do Rosário, Coronel Erondino Prado, Praça São Francisco, Ivo do Prado e Praça da Matriz, num percurso de 1200 metros.
A Secretaria de Estado da Cultura através da Diretoria do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural/DPHAC apóia manifestações artísticas e culturais, com o objetivo de manter e preservar tradições culturais de Sergipe, como também, colaborar na elaboração e execução de programas e projetos, nesse caso, na difusão e apoio logístico para a produção dos tapetes. O IPHAN através do Escritório de São Cristóvão atua no apoio logístico e com apresentações nas escolas da cidade, sobre o tema. O Centro de Cultura e Arte da Universidade Federal de Sergipe está disponibilizando equipes do curso de design para colaborar na produção dos tapetes na madrugada do dia 26, até o fim da manhã. São duas turmas que revezarão. Como também, o Cultart se responsabilizou pela confecção da arte de divulgação do evento religioso. No caso da prefeitura local, este ano teve uma participação mais efetiva através da Fundação João Bebe Água, sendo fundamental esse envolvimento, através da Presidente Dilene Job.
Os materiais utilizados para a confecção artística este ano, são: 200 quilos de Pó Xadrez, adquirido em Aracaju, nas cores: verde, vermelho, amarelo e azul; 600 sacos de maravalha advindas de diversas madeireiras de Aracaju e Itabaiana; quinze mil quilos de Sal Grosso vindo do Rio Grande do Norte, adquirido pela Prefeitura de São Cristóvão e as tinta anelina nas cores: vermelho, verde bandeira e preto (as anelinas são adquiridas da cidade de Porto Alegre/Rio Grande do Sul desde 2005); São colhidos também, borras de café doadas por instituições e entidades públicas e privadas.  
Pelo terceiro ano está sendo realizado um trabalho nas escolas de São Cristóvão, através da historiadora Kleckstante Farias, chefe do Escritório do IPHAN em São Cristóvão junto com Vânia, que está na condição atualmente de Coordenadora de Educação Patrimonial da DPHAC. Elas apresentam em data show o significado de Corpus Christi e como são produzidos os tapetes. Imagens são mostradas para os alunos, desde o preparo até os tapetes prontos nas ruas da cidade. O sentido maior é difundir e estimular os estudantes a se envolverem nessa ação religiosa que faz parte do calendário oficial brasileiro, sobretudo, despertar o sentimento de pertencimento. Esse trabalho de educação patrimonial nas escolas é primordioso.
 A divulgação e promoção dessa manifestação cada vez mais atraem visitantes para o Centro Histórico da Cidade e mantém o espírito de cooperação e união dos fies, sobretudo, pela organização do evento por meio da preparação e produção dos tapetes, integrando a comunidade religiosa nas igrejas, em conjunto com a comunidade envolvida, para que a atividade perpetue e a tradição dos tapetes na cidade se consolide de fato. Muitas famílias se unem a fim de dar continuidade às tradições de embelezar as casas e as ruas em dias de procissão.
Este ano, apesar das dificuldades em adquirir os materiais para produzir os tapetes, a integração da Prefeitura Local, através da Fundação João Bebe Água, Secretaria Municipal de Educação, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/IPHAN/SE, a Diretoria do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural/DPHAC/SECULT e o Centro de Cultura e Arte da Universidade Federal de Sergipe, colaborou muito no que se refere à organização do evento junto à coordenadora e a Paróquia Nossa Senhora da Vitória.
Assim, as manifestações artísticas, culturais e religiosas de Sergipe, se potencializam a cada ano quando as ações são feitas de forma compartilhada. Nesse sentido, a DPHAC através de sua equipe iniciou um trabalho de documentação sobre a Confecção dos Tapetes de Corpus Christi de São Cristóvão, a fim de criar um caderno para consulta de acesso ao público interessado, os profissionais acompanharão a produção dos tapetes desde o inicio no dia 25, até após a procissão no dia 26. A documentação conterá: Registro iconográfico, entrevistas, produção de um documentário e textos.
A Programação inicia no próximo dia 26 às 14:30 com Missa Solene na Igreja Matriz, em seguida a Procissão acompanhada da Banda de Música do Corpo de Bombeiros.
Maiores informações sobre a Procissão de Corpus Christi em São Cristóvão, procurar o Pároco Frei Rosenildo. Referente à Confecção dos Tapetes, procurar a coordenadora Vânia Correia, contato: 99135-2007.
Realização: Paróquia Nossa da Vitória e Comunidade São Cristovense.

Aracaju, 23 de maio de 2016.


Marcos Paulo Carvalho Lima
Pesquisador

Entrevistas:
Denize Santiago
Kleckstante Farias

Vânia Correia
JORNAL DA CIDADE


14/08/2015 ÀS 09H10 - ARTIGOS

Folclore e o Patrimônio Cultural Brasileiro

Licenciado em História pela UFS, Especialização em Ensino para a Igualdade nas Relações Étnico-Raciais pela FSLF e Pesquisador
Por: Marcos Paulo Carvalho Lima
A cultura popular tradicional, que envolve o folclore, os folguedos populares, o artesanato, as quadrilhas juninas, as culturas oriundas de comunidades indígenas, as afro-brasileiro, as ciganas, ribeirinhas, as com influência árabe, a culinária, são elementos formadores do patrimônio cultural brasileiro.
Em 1965 o Congresso Nacional oficializou que todo o dia 22 de agosto será celebrado o Dia Nacional do Folclore. É um momento comemorativo, entendemos como uma das formas de trabalhar no sentido de valorizar e difundir as histórias e culturas de personagens do folclore desse país rico em diversidade cultural. O Folclore está inserido também no contexto do que compreende o patrimônio cultural. O dia 17 de agosto é o dia do Patrimônio Histórico e Cultural Brasileiro. No entanto, para considerar bens culturais como patrimônio, precisa do reconhecimento da comunidade local e a sociedade, em conjunto com os fazedores dos saberes e fazeres dessas culturas referenciais e representativas de época, com apoio dos órgãos governamentais. Podemos indagar de tal forma: O que é ser brasileiro? Para os sergipanos, O que é ser Sergipano? Isso são questões que constantemente devem ser abordadas pelas instituições educacionais e culturais. A brasilidade e a sergipanidade. Dessa forma, para obtermos entendimentos sobre identidades culturais, um tema bastante complexo, os estudos acadêmicos e realizados por profissionais da área do patrimônio cultural sãos primordiais. Não podemos deixar de citar estudiosos como o sergipano Sílvio Romero, Câmara Cascudo, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freire, entre outros, colaboradores para o processo de identificação das culturas identitárias do país. 
As primeiras medidas para o reconhecimento de um bem como patrimônio cultural, é o encaminhamento de propositura ao Conselho Estadual de Cultura ou de Patrimônio como ocorre em alguns estados que existe Conselho de Patrimônio Cultural, devendo conter: introdução, justificativa, documentação iconográfica, vídeos, entre outros meios que subsidiem o pedido, podendo ser feito por órgãos públicos, cidadãos, organizações da sociedade civil, associações, entre outros. Neste contexto, o Governo do Estado de Sergipe, reconhece através de Decreto, os grupos folclóricos: A Taieira e o São Gonçalo, ambos do município de Laranjeiras como Patrimônio Imaterial Sergipano. 
Concernente A Taieira de Laranjeiras, surgiu em meados do século XIX, com a avó e a mãe de Dona Bilina, herdeira da tradição religiosa africana Nagô. Dona Bilina faleceu em 27 de setembro de 1974, em seguida a taieira fica sob a liderança de Dona Maria de Lourdes Santos, que veio a falecer em outubro de 2002. Após o falecimento de Dona Lourdes, sua filha Bárbara Cristina dos Santos passa a liderar o grupo, a partir de janeiro de 2003. A Taieira de Laranjeiras é reconhecida como Patrimônio Imaterial Sergipano, através do Decreto nº 29.558, de 23 de outubro de 2013. O grupo é pertencente ao ciclo natalino, sai em cortejo pelas ruas de Laranjeiras, e quando são convidadas a participar de eventos e/ou encontros onde ocorrem manifestações da cultura tradicional.
Referente a Dança de São Gonçalo, de acordo com a pesquisadora Aglaé D’Ávila, é uma dança de origem portuguesa, em louvor a São Gonçalo do Amarante, organizada geralmente em pagamento de promessa ou voto de devoção. Fazendo parte da bagagem cultural lusitano, a dança que integrava o culto a São Gonçalo de Amarante, popular em Portugal, foi introduzida no Brasil, sendo aqui registrada pela primeira na Bahia em 1718. 
A Dança de São Gonçalo de Amarante da Mussuca é uma das manifestações folclóricas mais divulgadas e apreciadas pelos sergipanos. É talvez um dos ritos mais difundidos do catolicismo rural brasileiro. A Dança de São Gonçalo da Mussuca tem reconhecimento como Patrimônio Imaterial pelo Governo do Estado, através do Decreto nº 29.558, de 23 de outubro de 2013, o mesmo que reconhece A Taieira.
No entanto, para que as novas gerações possam desfrutar e apreciar essas culturas, é preciso que o poder público desenvolva mecanismos e programas visando à salvaguarda desses bens relativos, as formas de sociabilidade, a religiosidade, os modos de saber e fazer, os relacionados ao meio ambiente, entre outros. Por tanto, faz-se necessário ações de produção de conhecimento e documentação, de sensibilização da sociedade, instrumentos e mecanismos de fomento e promoção. Como diz a professora Ana Conceição Sobral de Carvalho, “O patrimônio cultural do povo deve ser preservado e vivenciado por cada um de nós, sem diferença de época ou poder!
Dessa forma, a fim de salvaguarda a memória coletiva de um povo, é fundamental estudos e pesquisas: filmagens, entrevistas, encontros, registros iconográficos, pesquisas de campo, estudos bibliográficos, elaboração de textos, sistematização de informações, inerentes aos bens culturais reconhecidos. Isso são procedimentos técnicos que chamamos de patrimonialização de um bem histórico e cultural, objetivando à elaboração de inventários e o registro de bens reconhecidos pelo Poder Público, em respectivos Livros de Registro. 
A fim de dar continuidade histórica aos bens culturais representativos, é preciso realizar projetos educativos e programas de educação patrimonial. 
Um exemplo que cito neste momento, é uma exposição denominada “Nosso Folclore”, que se encontra a partir do dia 10 de agosto deste ano na Biblioteca Pública Epifãnio Dória, atividade realizada através da Sala de Cultura Popular em parceria com a Diretoria do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural/DPHAC e a Galeria de Arte J Inácio, ambas as unidades são vinculadas a Secretaria de Estado da Cultura de Sergipe. A DPHAC é um organismo responsável por coordenar as ações e políticas públicas voltadas à preservação do patrimônio cultural sergipano. A Galeria de Arte J Inácio, além de disponibilizar um espaço que propicia aos artistas plásticos sergipanos divulgar suas obras de artes, também colabora com montagem de exposições.
Essas ações são de fundamental importância para o processo educativo, de fomento, difusão e promoção do folclore e o patrimônio cultural, seja de ordem material e imaterial. Essas atividades possibilitam que as escolas e universidades tenham oportunidades de agendar durante o mês de agosto, atividades com objetivo de realizar aulas sobre a história e cultura local fora do âmbito de ensino, tanto o básico como o universitário e colabora com o exercício de educação patrimonial.