sexta-feira, 27 de junho de 2014

Barco de Fogo, um espetáculo do ciclo junino considerado patrimônio cultural sergipano



* Marcos Paulo Carvalho Lima


As festividades juninas foram trazidas para o Brasil pelos portugueses durante o período colonial. Os países de origem católica louvavam e homenageavam o São João, por isso, a festa também é conhecida como Joanina. No Brasil, têm grande influência agrária, está ligada a zona rural, a terra e à sua fertilidade, como nos conta os pesquisadores Roberto Benjamim e Aglaé D’Ávila, em São João Dormiu e São Pedro Acordou. Aliás, fonte bibliográfica para esse diálogo.
Trazido para o Brasil por influência portuguesa, o festejo é resultante da aglutinação dos cultos pagãos em louvor a terra como a data de nascimento do santo católico João, que foi preparador da vinda de Cristo. Do ambiente rural passou para a cidade. Nela se procura, entretanto, sempre reviver os costumes rurais[1]. Daí os trajes, a comida, a música, a dança, entre outros aspectos da cultura que remontam o passado ao presente.
[2]O mês de junho é momento de homenagear principalmente três santos católicos: Santo Antônio São João e São Pedro. Como é uma região onde a seca é um problema grave, os nordestinos aproveitam as festividades para agradecer as chuvas raras na região, que servem para manter a agricultura.
O fogo simboliza a purificação e há os que afirmam que “as almas danadas serão consumidas pelo fogo do inferno”. O fogo é considerado também como uma representação do sol e sua utilização é milenar. Chineses, indianos, e árabes já usavam o fogo nos seus festejos (São João Dormiu São Pedro Acordou, pg. 08.)
Concernente à conservação ambiental e a relação homem e natureza, nos fala Roberto sobre a passagem do homem da vida rural para a urbana: O homem é, porém, parte da natureza e ao construir uma cultura que o distancia dela, se violenta. Assim diz que a retomada de um calendário construído sobre os ciclos naturais, marcando as variações culturais do tempo e do lugar, é uma aspiração que se baseia não apenas em um sentimento de saudade, de evocação de um tempo perdido, mas se adequação da vida urbana a uma cultura que não se afaste o homem da natureza. (Roberto Benjamin, A Religiosidade Popular e o Folclore do Ciclo Junino, São João Dormiu, São Pedro Acordou)  
O fogo é um louvor, e a fogueira é um dos símbolos que mais referencia o mês de junho. Os fogos de artifício, os foguetes, as espadas, os busca-pés, as chuvinhas, o peido de veio, entre outros, são parte desse momento tão precioso para o povo nordestino.  Tirando os perigos e os cuidados a serem tomados, complementam a alegria dos festejos do ciclo.
Durante o mês de junho, três santos são festejados como mencionado anteriormente, Santo Antônio, São João, São Pedro, porém, temos o esquecido São Paulo, comemorado no dia 29. Só que, não podemos esquecer também que apesar do São José não datar do mês de junho, faz parte do ciclo junino, pois, em seu mês, inicia a plantação do milho, por exemplo. Conforme a tradição religiosa é preciso chover no Dia de São José, para que o ano seja bom em termos de chuva e a colheita satisfatória. Sabemos que a louvação é mais presente na crença católica dessa época, mas, não podemos deixar de fora toda a religiosidade popular que envolve também os grupos folclóricos com influências de outros grupos étnicos e sociais.  
Sem dúvida o mês de junho é o tempo mais esperado pelos nordestinos. É uma época de religiosidade popular, de manifestações da cultura tradicional: culinária, artesanato, quadrilhas juninas. É época do Barco de Fogo!!!!! De Estância para Aracaju, entre outros municípios sergipanos.
Quando se fala em festejos juninos em Sergipe, é impossível mesmo com o Forro Caju e o Arraial do Povo, não mencionar o São João em Estância (São João de Estância), destaque da história e cultura junina do Estado. As manifestações em torno do ciclo junino iniciam-se com o envolvimento dos homens brincantes e os fogueteiros, no Batuque do Pisa-Pólvora e na fabricação dos Busca-Pés. Todo esse preparativo se dá no mês de janeiro para fevereiro, quando o bambu é cortado.
Esses brincantes em sua maioria integram profissionalmente as duas associações de fogueteiros do município e/ou participam de grupos folclóricos, como: Batucada e Batucada Busca-Pé.
Referente ao barco de fogo, propósito maior desse diálogo, é um bem histórico e cultural feito artesanalmente, de cunho tradicional ligado ao ciclo junino. Produzido exclusivamente em Estância. O bem cultural em sua origem data do inicio do século XX, criado por Chico Surdo. De acordo com Ronaldo(Roni), fogueteiro nascido no município e há 30 anos está no meio dos fogueteiros, não se tem precisão quando iniciou a produção do barco de fogo, mas, é uma tradição que se arrasta por décadas, passando de geração em geração. A transmissão do saber e fazer o barco de fogo é tradicional em Estância: Os pais vão passando conhecimento da produção de fogos para os filhos, parentes, os ajudantes, como também aqueles que estejam no meio e se interessem pela produção do bem cultural. Roni tem quatro ajudantes que já são fogueteiros profissionais. Para ser considerado fogueteiro profissional tem que saber fazer “tudo relacionado ao fogo”. Primeiro passa por ajudante, depois se torna um profissional do ramo. Para isso, tem que ter capacidade e compromisso! Afirma o fogueteiro Ronaldo.
Em Estância existem duas associações. Para ser considerado um fogueteiro profissional tem que passar por alguns testes. Após avaliação e aprovação, se afilia a associação envolvida, e, é considerado um fogueteiro profissional. Em conversa com Valdivino Menezes, Presidente da Associação de Fogueteiros e Barqueiros de Estância, o dia 11 de junho é um momento importante para os estancianos, é o dia do Barco de Fogo, e, nos faz lembrar o seu fundador, Chico Surdo, porém, nos dias 23 e 24 é onde acontece a nossa festa maior, tem a procissão dos grupos folclóricos, o casamento, os fogos de artifício e a apresentação do Barco de Fogo.
A maior tradição de Estância na área de fogos é o Busca-Pé, onde o barco de fogo está ligado diretamente. Não tem barco de fogo sem Busca-Pé!
Para a produção desse bem histórico e cultural, ocorrem vários processos que vai da aquisição da taboca, corte do bambu, exposição do mesmo ao sol, entre tantos procedimentos que envolvem a parte estética ao formato do bem cultural, que em sua essência é um Barco, porém, podendo representar um avião, um ônibus, por exemplo.
O Poder Público Estadual reconhece o Barco de Fogo como patrimônio cultural do povo sergipano, através da Lei 7.690. O dia 11 de junho é considerado como o Dia do Barco de Fogo, data de nascimento de seu criador, Chico Surdo, e, faz parte do calendário cultural do município de Estância.
Sendo assim, a Subsecretaria de Estado do Patrimônio Histórico e Cultural/SUBPAC, vem realizando estudos visando o registro de bens considerados patrimônio imaterial e/ou intangível do Estado. Esses estudos não objetivam somente a inscrição dos bens culturais reconhecidos em respectivos Livros, mas, principalmente desenvolver medidas e instrumentos que visem à promoção e salvaguarda, para que gerações futuras possam desfrutar e vivenciar essas culturas.

Fontes e Textos visitados:
O São João na Estância. Ofenísia Soares Freire
A Batucada do Pisa. Aglaé D’Ávila Fontes
Jornal Folha Trabalhista, Estância/SE. 1971 e 1972



*Marcos Paulo Carvalho Lima
Pesquisador


[1]  FUNDESC, São João Dormiu, São Pedro Acordou. Aracaju 2014.


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