Tão logo os carmelitas aportaram em
Sergipe d’El Rey, em 1618, já trataram de construir um rico complexo arquitetônico,
que compreende Convento, Igreja e Sede da Ordem Terceira. Atualmente a Igreja
da Ordem Terceira do Carmo(ou Carmo Menor), é denominada da Igreja Senhor dos
Passos, e dela parte de uma das maiores e mais tradicionais festividades
religiosas de Sergipe: a Festa Nosso Senhor dos Passos. A Igreja Nossa Senhora
do Carmo (Carmo Maior) abriga várias imagens de rara beleza e inestimável valor
cultural e retrata fielmente o barroco brasileiro dos séculos XVII e XVIII.
(São Cristóvão. Berço de Sergipe, Guia de Visitação).
No
Conjunto do Carmo há dois espaços: O Museu/ou Memorial de Ex-Votos e o Memorial
da Irmã Dulce, que abriga um acervo referente a sua passagem por Sergipe,
historicamente, são colocadas oferendas em agradecimento as graças alcançadas.
Além de turistas oriundos dos diversos estados e de
municípios sergipano, a tradicional festa Nosso Senhor dos Passos reúne romeiros
e devotos para agradecer as graças alcançadas e realizar promessas. Os romeiros
descem e sobem as ladeiras do município de São Cristóvão cantando e rezando.
Antes do fim de semana que ocorre a Festa, acontecem
os três primeiros Ofícios, sempre nas sextas-feiras. O quarto Ofício é chamado
de: Ofício da Festa. Prosseguindo, são realizados os três últimos Ofícios,
totalizando os Sete Ofícios de Nosso Senhor dos Passos. Em outro momento,
focarei mais sobre os Ofícios de Passos e a Verônica. Recomendo leitura dos
trabalhos de: Magno Francisco e Ivan Rêgo, alguns se encontram nas fontes
consultadas.
As Procissões de Senhor
dos Passos são realizadas nos segundos sábado e domingo após a realização do
carnaval. Na sexta á noite os fiéis rezam o Ofício da Paixão de Jesus Cristo,
em seguida a missa, após, acontece o momento que vem ocorrendo nos últimos anos,
o Ensaio para a peregrinação do sábado. No sábado ocorre à primeira procissão,
após a Missa Campal realizada a noite na Praça do Carmo, em seguida os romeiros
cantam e caminham pela cidade, seguindo roteiro, os sete primeiros passos da
Paixão, que são realizados em locais definidos, seguindo tradição, onde são
erguidos pequenos altares com uma tela representando a passo a ser cantado
pelos cantadores. Os fiéis carregam velas acesas, muitos dos ex-votos são
deixados na Igreja noite do sábado e às vezes na sexta. Como havia dito
anteriormente, o cortejo sai da Igreja do Carmo, cantores, músicos e
promesseiros, seguindo a imagem de Senhor dos Passos. No final da caminhada
pelas ruas de São Cristóvão, conforme escrito acima vão até a Igreja Matriz de
Nossa Senhora da Vitória, de onde sairá somente no domingo à tarde. A Romaria
segue em silêncio, grande parte dos promesseiros vestem túnica roxa. Saem acompanhando
a imagem de Senhor dos Passos. A procissão diurna, chamada Procissão do Encontro,
realizada na tarde do domingo tem dois cortejos: Um acompanha o Senhor dos
Passos da Igreja Matriz em direção a Praça São Francisco onde ocorre o referido
Encontro, são cantados três passos neste percurso, em todos os anos as ruas são
as mesmas, porém, muda o local/residência onde para a Romaria, em 2015: 1º
Passo, beco da Poesia(casa de Dona Marita); 2 º Passo, na rua Frei Santa
Cecília, (casa de Dona Gilza), os Passos são parados em frente as residências,
3º Passo, Praça são Francisco, de onde prosseguem a romaria. O outro cortejo
sai da igreja do Carmo acompanhando a imagem de Nossa Senhora em direção à
mesma praça. Um sermão é realizado no momento do encontro das imagens, logo
após ouve-se o canto da Verônica, o momento mais aguardado pelos romeiros. Os
promesseiros atiram suas vestes penitenciais em direção às imagens.
De
acordo com o pesquisador Ivan Rego, a referida festa é destinada à renovação de
votos em favor do Senhor dos Passos, um dos mistérios da Paixão. São dois dias
de celebração onde o Martírio de Cristo e a Dor de Sua Mãe ao presenciá-lo a
caminho da Crucificação, são relembrados por milhares partícipes que chegam de
várias partes do estado e do Brasil. Os devotos, fiéis, promesseiros,
penitentes, turistas e observadores dão a solenidade são cristovense o tom de
festa polissêmica e multifuncional onde o destaque fica tanto praças, ações
penitenciais públicas relacionadas ao ideal de imitação de um Cristo que
sofreu, como para as ações de desobriga. Esses atos de fé e religiosidade em
São Cristóvão atestam a eficiência do compromisso entre devoto e o Senhor dos
Passos. (ARAGÃO, Ivan. Festa, Memória e Turismo Cultural-religioso)
As
festas com base no caráter sagrado ou profano são acontecimentos tradicionais,
que deslocam grande contingente de pessoas em busca de conforto espiritual,
equilíbrio psicológico, fuga do cotidiano, lazer e enriquecimento cultural.
Embora em mais de cinco séculos de presença portuguesa no Brasil, as festas
profissionais de origem ibérica tenham se ressignificado, as mesmas são “uma
das mais antigas manifestações da vida social no Brasil. Elas diferem umas das
outras conforme a época e a sociedade, mas, invariavelmente, representam os
valores, reforçam as estruturas sociais e ajudam a construir a identidade de um
grupo. ( REGO, Ivan [...]”, apud Ferreira, 2009, p. 11).
Ainda no artigo de Ivan, as
celebrações sagradas dão instrumentação para identificar nesses eventos uma
vivência do religioso incorporado ao cultural, possibilitando, muitas vezes, a
recuperação da própria identidade (Martins & Leite, 2006). No país, ainda
predomina o catolicismo como religião em destaque, nesse contexto, ao longo do
ano as festas de padroeiros e santos fazem parte do dia a dia das pessoas.
Iniciando em janeiro, com as comemorações dos Santos Reis; em abril, a Semana
Santa; passando por datas festivas como Corpus Christi e festas do ciclo
junino, em junho; e finalizando com o Natal, em dezembro; há ainda as
homenagens aos santos e padroeiros, no calendário litúrgico anual. Santos e
Nunes (2005), refletem que:
As festas constituem um dos principais
momentos do catolicismo popular. É difícil imaginar o cotidiano de uma pequena
cidade brasileira sem as agitações das novenas, santas missões, acompanhamentos
e procissões. Essas são algumas expressões de religiosidade que acabam por se
tornar um grande instrumento para se compreender a sociedade na qual estão
inseridas (p. 98). (IBID)
O
pesquisador Magno Francisco, que se dedica há anos estudos sobre religiosidade,
nos diz que: “A romaria do Senhor dos
Passos também é o lócus dos sentidos. Para sentir o tempo de penitência dos
Passos podemos fechar os olhos e ouvir o dobrar dos sinos, os motetos dos sete
Passos, o lastimoso canto da Verônica ou os benditos dos pedintes. Podemos sentir
os cheiros que rondam a cidade, com os cabelos queimados pelas velas na
Procissão do Depósito, com o manjericão exposto nos andores. O paladar também é
inconfundível com as famosas queijadas e briceletes vendidos nas ruas e
ladeiras da cidade. O calor humano transcende o espaço da igreja, sentido no
aperto entre os devotos transportando os andores do Senhor dos Passos e da
Virgem da Soledade pelas ruas estreitas. Podemos finalmente abrir os olhos e
ver o colorido dos parques de diversões na cidade baixa, o roxo nas sacadas dos
casarões, das igrejas e dos corpos dos romeiros, sem esquecer do que os devotos
fazem questão de destacar: a beleza dos "olhos vivos dos Senhor dos
Passos".
Com
relação à guarda da imagem, de acordo com o historiador Thiago Fragata,
conforme reza e tradição, a imagem de Senhor dos Passos e a organização do ato
processional ficava aos encargos dos leigos da Irmandade de Nossa Senhora do
Carmo, transformada em Associação em 1977. No passado, São Cristóvão foi centro
político e religioso da Capitania Del Rey. Assim, segundo Fragata, esse antigo
centro de convergência religiosa preserva manifestações culturais do período
colonial, como a Procissão de Senhor dos Passos.
Para
ele, não é possível datar com exatidão o início da maior Romaria de Sergipe, os
indícios acenam que tudo iniciou no final do século XVIII ou início do XIX. Com
base em Serafim Santiago, Fragata diz: “consta que a imagem articulada, chamada
de roca, em razão das características constitutiva e mobilidade, foi encontrada
no rio Paramopama, afluente do Vaza Barris.
No
ano de 2010, o Arcebispo José Palmeira Lessa, através de Decreto, oriundo da
Arquidiocese de Aracaju, determina: 1 – A Festa Senhor dos Passos da Cidade de
São Cristóvão será sempre da responsabilidade e coordenação do sacerdote que
tenha a cura pastoral da Paróquia de Nossa Senhora da Vitória; 2 – A antiga e
venerável imagem do Senhor dos Passos, conservada no templo chamado Carmo
Menor, bem como todo o acervo aí presente, é de responsabilidade de quem ocupa o
Convento do Carmo, atualmente os frades da Ordem Carmelita; 3 – Em se tratando
de levar a imagem do Senhor dos Passos em peregrinação, fora da tradicional
procissão no Tempo da Quaresma, utilizar-se-á sempre uma réplica, confeccionada
para este fim, e nunca a imagem original. (retirado na íntegra).
A Festa Nosso
Senhor dos Passos, não somente para os são cristovenses, mas, para os
sergipanos, principalmente a comunidade católica, possui um valor histórico e
cultural, de cunho tradicional religioso. O pedido de registro foi aprovado pelo
Conselho Estadual de Cultura, Processo nº22/10, de 02 de julho de 2010,
assunto: Registro Senhor dos Passos, como bem imaterial do patrimônio cultural
sergipano. Autora da propositura: Ana Nascimento Fonseca Medina, a relatora do
processo, foi a conselheira Ana Conceição Sobral de Carvalho, segundo a relatora:
A
magnitude e a abrangência do fato cultural preservado até os dias de hoje, pela
comunidade devocional, torna relevante o reconhecimento oficial através do registro
como bem imaterial do patrimônio cultural sergipano. (SORBRAL, Ana Conceição de
carvalho).
Para
Ana Conceição, assim conhecida, aliada ao registro como patrimônio imaterial, é
importante elaborar projeto de mapeamento detalhado do conjunto que envolve o
ato religioso e está em seus vários aspectos, como rituais de penitencia,
objetos devocionais, músicas, cantos, culinária, entre outros fatos que emanam
desse universo místico, para efeito de estudo, publicação e difusão.
Do ponto de vista social, as
comunidades, os grupos de pessoas que se reúnem à volta de “uma fé”, fazem da
educação o ponto de aprendizagem dos fenômenos religiosos da sua relação com o
divino na perspectiva que o ser intelectual só é na sua plenitude enquanto
produto do espiritual. Esta relação intelectualidade/espiritualidade
constitui-se como parte integrante dum patrimônio religioso e ao mesmo tempo
sinal de pertença de um lugar. (CAMPOS, Fernando, Educação e Religião:
Patrimônio, Pertença e Identidade).
Todavia, este referencial de cultura também alcança vertentes que
envolvem o âmbito social e econômico local, sobretudo, os significados que as
comunidades e sociedades atribuem à importância daquele bem religioso/cultural,
influenciando os vários meios de difusão inerente também ao âmbito do turismo.
O pluralismo cultural e religioso, apreendido nos estudos das
sociedades multiculturais é retransmitido através de veículos acadêmicos onde
perpassam todo o viés de segmentos religiosos, onde a cultura predominante em
certo âmbito geográfico utilizará de seu entendimento com o campo da divindade,
seguindo herança, a fim de dar continuidade também aos processos educativos de
ensino/aprendizagem e a transmissão da tradição religiosa de geração para
geração.
Aracaju,
25 de fevereiro de 2015.
Marcos
Paulo Carvalho Lima
Licenciado
em História pela UFS
Especialização
em Ensino para a
Igualdade
nas Relações Étnico Raciais/FSLF
Pesquisador
Fontes
Consultadas:
ARAGÃO,
Ivan Rego,. Análise do Marketing Religioso na
“Segunda Maior Romaria do Nordeste Brasileiro no Período da Quaresma” História Agora: A Revista do Tempo Presente.
ARAGÃO,
Ivan Rego. Festa, Memória e Turismo
Cultural-Religioso: A Procissão ao Nosso Senhor dos Passos, em São
Cristóvão-Sergipe. Revista Rosa dos Ventos.
SANTOS,
Magno Francisco de Jesus, NUNES, Verônica Maria Meneses, Na Trilha dos Passos do Senhor: A Devoção ao Senhor dos Passos de São
Cristóvão/SE. Revista da Fapese de Pesquisa e Extensão, v. 2, p. 97-110,
jul./dez. 2005
SANTOS,
Magno Francisco de Jesus, Os Últimos
Passos de uma Devoção: Indícios da religiosidade de um nobre sergipano
oitocentista. Historien, Revista de História(3) apr/set de 2010.
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