Culinária
como referência cultural
Os
saberes e fazeres dos mais diversos pratos da culinária brasileira estão ligados
aos aspectos socioculturais de nossa história, sobretudo, aos encontros entre
várias culturas ao longo do tempo. Sendo assim, recebemos a influência de
outros povos que aqui estiveram, nos deixando legados que hoje fazem parte do
nosso patrimônio cultural.
Os
índios e os africanos são grupos étnicos que contribuíram incomensuravelmente
para a formação das identidades culturais do país. Não há como falar de
história, memória e patrimônio cultural, sem mencionar a figura desses povos. Em
nossa gastronomia, podemos perceber claramente no preparar dos alimentos, as maneiras
de servir e de comer. Não obstante, a contribuição deixada pelos europeus,
principalmente, os portugueses, como de outros grupos étnicos e sociais A união
desses grupos criou uma cozinha tipicamente brasileira.
A diversidade presente no meio ambiente
propicia uma gama de receitas em nossa culinária, como por exemplo, a farinha
de mandioca, tão popular entre o povo, de qualquer classe social, sendo uma
herança indígena que através de sua matéria prima, diversos alimentos são
criados e recriados.
O
reconhecimento e a valorização do alimento pelo seu caráter simbólico, nos
traduz a comida enquanto um elemento de referência cultural. Assim, a
gastronomia é parte desses processos culturais para entender a nossa identidade.
Como também, a noção que podemos denominar como bem cultural imaterial uma ou
mais culinárias, a depender de sua identificação.
Cada
cultura gera uma gastronomia tradicional, com suas peculiaridades presentes em
todas as receitas. Os saberes e fazeres em torno da comida é objeto de registro
enquanto patrimônio imaterial, e não a comida em si. A mistura dos alimentos e
o encontro de diversas tradições culturais fazem a inter-relações entre os
aspectos culturais e simbólicos a partir do preparo dos alimentos. (AGUIAR,
Janaina Couvo. Identidade, Patrimônio Cultural e Comida).
Através
do decreto nº27.720, de 24 de março de 2011, Sergipe reconhece algumas comidas,
a saber: a queijada, o manauê, o beiju
de tapioca, a bolachinha de goma, o doce de pimenta do reino, o pé-de-moleque
de massa de puba, o amendoim verde cozido, o macasado e o saroio. Concernente
ao Amendoim Verde Cozido, temos outro instrumento de salvaguarda que é a Lei
nº7.682, de 17 de julho de 2013, que torna Patrimônio Imaterial de Sergipe e dá
outras providências correlatas.
(...) Conforme estudos realizados
pela pesquisadora Ana Maria Medina, a Cultura alimentar é fator de
identificação das comunidades. Os alimentos encerram em si mesmos as histórias
dos ritos e de suas culturas, sendo, portanto, pertinente sua classificação
como bem imaterial. No Brasil, a mistura
de etnias criou uma culinária plural com marcas indígenas, africanas e
européias. O colonizador não fugiu ao processo de aculturação, encontrou as
nossas farinhas nativas e com elas adaptou às suas receitas.(...)
Como
descreve a pesquisadora, Sergipe recebeu
de forma efetiva em sua culinária a influência da cozinha indígena, da cozinha
proveniente dos engenhos-casa grande e senzala e da culinária conventual,
freirática, com doces, sequilhos e licores, etc.
Ao falar de comidas típicas do Brasil, lembramos
logo de uma raiz bem genuína, a
mandioca. Através dela várias receitas são produzidas e estão ligadas a certos
espaços geográficos. A mandioca está presente de norte ao sul do país, possui
grande importância histórica e cultural, sendo fundamental por um longo período,
na alimentação dos nativos como também dos europeus. Vários pratos são
preparados provenientes dessa matéria prima, como o beiju, considerado o pão
dos índios brasileiros. Diversos tipos e sabores de beiju eram preparados pelos
nativos.
Uma
variedade de alimentos tradicionais são vendidos em feiras livres e algumas
dessas culinárias possui um caráter de identificação local. Quando falamos de
queijada em Sergipe, por exemplo, nos reportamos logo a São Cristóvão. Isso não
quer dizer que a queijada é comercializada somente nesse município. No entanto,
os modos de fazer queijada e bolachinha de goma de São Cristóvão, são as que
foram consideradas patrimônio cultural sergipano, dentro das comidas
selecionadas no Decreto 27.720. Por exemplo, no município citado temos três
grandes famílias que produz a Queijada, na Avenida Lourival Batista, conhecida
como Colônia Pintos, com a família de Dona Maria, na Ilha Grande com Dona
Madalena, e no Povoado Pedreiras com a família de Dona Maria de Neném da
Padaria Colonial. No Centro Histórico de São Cristóvão, temos a Casa da
Queijada de Dona Marieta, que além de fabricar também comercializa.
A comida tem o poder de nos transportar
rapidamente ao passado. Provoca a nossa memória, nos traz lembranças
principalmente através dos sabores e dos cheiros. Quem nunca comeu algo e
lembrou mamãe, vovozinha, titia fulana de tal? Mas, quem nunca comeu algo e
lembrou uma localidade, um povo? Porém, quando a lembrança é coletiva, nos faz
identificar a tamanha referência cultural de um bem, e por ai, passamos a
denominá-lo como patrimônio cultural após o reconhecimento.
Aracaju, 17 de julho de 2014.
Marcos Paulo Carvalho Lima
Pesquisador
Referências Bibliográficas:
CASCUDO, Luiz Câmara. História da Alimentação no
Brasil. 1968
FREIRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. 1933
Fontes Consultadas:
Decreto nº27.720
Lei nº 7.682
Processo nº027.000.000.32/2009/SEC
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