segunda-feira, 9 de março de 2015

A Taieira de Laranjeiras, bem cultural reconhecido como patrimônio imaterial sergipano




Os folguedos são festas de caráter popular cuja principal característica é a representação teatral, a dança, os cantos e a música. A maioria dos folguedos possui origem religiosa e raízes culturais dos povos que formaram a nossa cultura (indígenas, africanos e portugueses). No entanto, muitos folguedos com o passar dos anos foram incorporando mudanças culturais e adicionando, às festas, novas coreografias, vestimentas e indumentárias, integrando ao folclore brasileiro. Em quase todo o território brasileiro pode se encontrar folguedos, porém, é no nordeste que se fazem mais presentes.
Para a antropóloga Beatriz Góis Dantas, com relação às expressões artísticas procedentes da cultura dos escravos, encontraram na música e na dança um substituto para as liberdades políticas formais que lhes foram negadas. Como ressalta Paul Gilroy(2001, p.129) “ a arte se tornou a espinha dorsal das culturas políticas dos escravos e de sua história cultural” e até hoje representa um poderoso instrumento no processo de comunicação social dos descendentes africanos com os demais segmentos sociais. A dança ritual das Taieiras, executada no contexto das festas de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, cujo conteúdo cultural aparece associado à devoção dos santos negros.
As culturas expressivas negras-em especial a música e a dança – participaram ativamente de história cultural e política dos africanos e de seus descendentes no Brasil. As manifestações do chamado folclore negro, a exemplo da taieira, congada, maracatu, lambe-sujo, etc, são parte construtiva da nossa memória coletiva, expressões culturais sem as quais dificilmente saberíamos o que fomos e o que nos tornamos como povo e como nação. Na base desses repertórios teatral, cênico e musical, iremos encontrar formas culturais híbridas ricas em simbolismo e significado. (DANTAS, Beatriz, A Taieira de Sergipe).
Os folguedos se apresentam em toda época do ano, porém, após o período junino, inicia-se outro momento que segue até o ciclo natalino, como dizia o folclorista brasileiro, membro fundador da Comissão Nacional do Folclore, Teothônio Vilela Brandão: “Ao apagar das fogueiras juninas, inicia-se o período de ensaios para os vários folguedos natalinos. Em diversas regiões do Estado de Alagoas, aos sábados e domingos, reúnem-se mestres, tocadores, ensaiadores e brincantes para os ensaios desses grupos, geralmente realizados ao lado de bodegas, onde o proprietário consegue recursos para o traje da brincadeira”. (BRANDÃO, Théo, Folguedos Natalinos).
Taieira-folguedo de caráter extremamente religioso, no entanto tem seu lado profano, dada a lascivicidade característica da coreografia de determinadas estrofes das músicas que são cantadas. Taieira é uma corruptela variante das Talheiras, dança em que eram comum o uso de talhas como elemento básico da coreografia e ritual. No Brasil a sua presença teve registro na Bahia a partir do século XVIII. É um folguedo que, pelas análises pode-se afirmar como de origem afro-luso brasileira porque se apóia no elemento aculturativo. O seu objetivo é a louvação, e esses louvores são dirigidos a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito, ou mais precisamente, A Nossa Senhora do Rosário, vencedora de Loponto e igualmente protetora dos escravos. LARANJEIRAS: “um museu a céu aberto”, Banco do Nordeste do Brasil S.A, Fortaleza. 1983.
A Taieira de Laranjeiras surgiu em meados do século XIX, com a avó e a mãe de Dona Bilina, herdeira da tradição religiosa africana Nagô de Ti Herculano, que passa a liderar a taieira por volta de 1902/1903. Dona Bilina faleceu em 27 de setembro de 1974, em seguida a taieira fica sob a liderança de Dona Maria de Lourdes Santos, que veio a falecer em outubro de 2002. Após o falecimento de Dona Lourdes, sua filha Bárbara Cristina dos Santos passa a liderar o grupo, a partir de janeiro de 2003. A Taieira de Laranjeiras é reconhecida como Patrimônio Imaterial Sergipano, através do Decreto nº 29.558, de 23 de outubro de 2013.
O grupo é pertencente ao ciclo natalino, sai em cortejo pelas ruas de Laranjeiras, e quando são convidadas a participar de eventos e/ou encontros onde ocorrem manifestações da cultura tradicional. Fazem parte do grupo a Rainha, reminiscência dos antigos reis de Congo, acompanhada dos seus ministros, capacetes e dançarinas, em direção à igreja onde é celebrada a grande Missa de dia de Reis. A coroação da Rainha da Taieira é uma cerimônia que se repete a várias décadas seguindo o mesmo ritual. No final da missa o padre celebrante retira a coroa da imagem de Nossa Senhora do Rosário e coloca na cabeça da Rainha da Taieira. Nesse momento os sinos da igreja tocam, fogos estouram e os grupos folclóricos dançam e cantam louvores para os Santos e para a Rainha da Taieira. É uma manifestação de muitas cores, cantos e danças, uma hibridização do sagrado e do profano bem marcante da cultura afro-brasileira, como também, manifestada no catolicismo popular nordestino. Caracterizado pelo seu cunho estritamente ritualista, colocando acima de simples manifestação figurativa e teor místico dos cultos afros. A sua coreografia é de uma simplicidade singular e, acrescido do colorido das vestes e adereços dos participantes.
Atualmente compõem a Taieira de Laranjeiras: Taieiras/dançarinas 23, Guias 02, Rainhas 02, Lacraias, 02, Rei 01, Ministro 01, Capacete 02, Patrão 01, totalizando 34 componentes. Há uma variação no número de participantes, isso depende do dia e momento da apresentação. A cada ano pode mudar a quantidade de componentes do grupo. Normalmente as crianças ingressam no grupo com 03 anos de idade e a faixa etária vai até os 80 anos.
O dia 06 de janeiro tem sido sempre salientado no calendário da cidade de Laranjeiras, aí celebra a festa de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, cultuada pelas pessoas mais devotadas e sensíveis aos rituais e tradição. A comemoração contém um caráter acentuadamente popular, evidenciando o festejo da Taieira, cujo feitio peculiar, revela a presença de uma continuidade cultural. (DANTAS, Beatriz Góis).
Para Dantas, a temática das cantigas da Taieira é bastante rica prendendo-se ora a motivos profanos, ora a motivos religiosos refletindo os anseios e situações sociais do passado e do presente, através dos cantos. A coordenadora e organizadora da Taieira de Laranjeiras é Dona Cisa(Maria do Espírito Santo), tutora de Bárbara e responsável por cuidar do material, tem a função de confeccionar as indumentárias, adereços, entre outros materiais que compõe a parte tangível do bem cultural.
Como disse um dos maiores pesquisadores e folclorista que Sergipe já teve e tem a Honra de fazer parte de sua história, Luiz Antônio Barreto, O folclore sergipano, não perdeu, de modo algum, a sua importância como livro pioneiro, na sistemática da cultura popular, seguindo trilhas abertas por Sílvio Romero, a partir da década de 70 do século XIX, João Ribeiro, a partir do curso ministrado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em 1913, Clodomir Silva, como o clássico Minha Gente, de 1922. Paulo de Carvalho-Neto, cuja biografia de antropólogo está repleto de livros, antigos comentários em diversos países da América Latina, nos Estados Unidos e no Brasil, ocupa lugar destacado também em sua terra natal, pelo valioso livro que dedicou ao folclore de Sergipe. Incluo nesse hall de renomados estudiosos, o historiador e folclorista José Calazans, a professora Aglaé D’Ávila Fontes e a professora Beatriz Góis Dantas, pelas diversas obras, publicações e textos dedicados até os dias atuais, a história e a cultura sergipana.
A Taieira de Laranjeiras é um bem cultural que o Estado de Sergipe reconhece através do Decreto nº 29.558, de 23 de outubro de 2013, encontra-se em processo de estudos pelo órgão que cuida do patrimônio histórico e cultural de Sergipe, visando à inscrição num Livro de Registro como Formas de Expressão, após a elaboração e publicação de um Decreto que cria os supracitados Livros de Registro e o Programa Estadual de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial. A Taieira fica localizada na praça onde ficam as ruas da Cacimba e Alegria. O Bem cultural não tem nenhuma fonte de renda voltada a preservação do grupo folclórico. É importante a criação de mecanismos que vise à manutenção do grupo. Não é fácil manter um grupo folclórico! É necessário que os poderes públicos e privados olhem mais para esses grupos, pois, eles salvaguardam parte de nossa história e memória. 


Marcos Paulo Carvalho Lima
Pesquisador
Licenciado em História/UFS
Especialização em Ensino para a
Igualdade nas Relações Étnico-Raciais/FSLF

Fontes Consultadas:
BRANDÃO, Théo.  Folguedos Natalinos de Alagoas. Imprensa Oficial de Alagoas,
Maceió, 1961.
DANTAS, Beatriz Góis, A Taieira de Sergipe: uma dança folclórica. 2ª edição. Editora UFS. São Cristóvão/SE, 2013.
NETO, Paulo de Carvalho. Folclore Sergipano, 2ª edição em língua portuguesa. Sociedade Editorial de Sergipe.
_______LARANJEIRAS: “um museu a céu aberto”, Banco do Nordeste do Brasil S.A, Fortaleza. 1983.
_______Sua Pesquisa.com-Folguedos o que são folguedos folclóricos, natalinos, festas populares.

quarta-feira, 4 de março de 2015

FESTA NOSSO SENHOR DOS PASSOS DE SÃO CRISTÓVÃO/SE: Aprovada pelo Conselho Estadual de Cultura como Patrimônio Imaterial Sergipano

http://www.jornaldodiase.com.br/noticias_ler.php?id=15033

Tão logo os carmelitas aportaram em Sergipe d’El Rey, em 1618, já trataram de construir um rico complexo arquitetônico, que compreende Convento, Igreja e Sede da Ordem Terceira. Atualmente a Igreja da Ordem Terceira do Carmo(ou Carmo Menor), é denominada da Igreja Senhor dos Passos, e dela parte de uma das maiores e mais tradicionais festividades religiosas de Sergipe: a Festa Nosso Senhor dos Passos. A Igreja Nossa Senhora do Carmo (Carmo Maior) abriga várias imagens de rara beleza e inestimável valor cultural e retrata fielmente o barroco brasileiro dos séculos XVII e XVIII. (São Cristóvão. Berço de Sergipe, Guia de Visitação).

No Conjunto do Carmo há dois espaços: O Museu/ou Memorial de Ex-Votos e o Memorial da Irmã Dulce, que abriga um acervo referente a sua passagem por Sergipe, historicamente, são colocadas oferendas em agradecimento as graças alcançadas.
Além de turistas oriundos dos diversos estados e de municípios sergipano, a tradicional festa Nosso Senhor dos Passos reúne romeiros e devotos para agradecer as graças alcançadas e realizar promessas. Os romeiros descem e sobem as ladeiras do município de São Cristóvão cantando e rezando.
Antes do fim de semana que ocorre a Festa, acontecem os três primeiros Ofícios, sempre nas sextas-feiras. O quarto Ofício é chamado de: Ofício da Festa. Prosseguindo, são realizados os três últimos Ofícios, totalizando os Sete Ofícios de Nosso Senhor dos Passos. Em outro momento, focarei mais sobre os Ofícios de Passos e a Verônica. Recomendo leitura dos trabalhos de: Magno Francisco e Ivan Rêgo, alguns se encontram nas fontes consultadas.
As Procissões de Senhor dos Passos são realizadas nos segundos sábado e domingo após a realização do carnaval. Na sexta á noite os fiéis rezam o Ofício da Paixão de Jesus Cristo, em seguida a missa, após, acontece o momento que vem ocorrendo nos últimos anos, o Ensaio para a peregrinação do sábado. No sábado ocorre à primeira procissão, após a Missa Campal realizada a noite na Praça do Carmo, em seguida os romeiros cantam e caminham pela cidade, seguindo roteiro, os sete primeiros passos da Paixão, que são realizados em locais definidos, seguindo tradição, onde são erguidos pequenos altares com uma tela representando a passo a ser cantado pelos cantadores. Os fiéis carregam velas acesas, muitos dos ex-votos são deixados na Igreja noite do sábado e às vezes na sexta. Como havia dito anteriormente, o cortejo sai da Igreja do Carmo, cantores, músicos e promesseiros, seguindo a imagem de Senhor dos Passos. No final da caminhada pelas ruas de São Cristóvão, conforme escrito acima vão até a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Vitória, de onde sairá somente no domingo à tarde. A Romaria segue em silêncio, grande parte dos promesseiros vestem túnica roxa. Saem acompanhando a imagem de Senhor dos Passos. A procissão diurna, chamada Procissão do Encontro, realizada na tarde do domingo tem dois cortejos: Um acompanha o Senhor dos Passos da Igreja Matriz em direção a Praça São Francisco onde ocorre o referido Encontro, são cantados três passos neste percurso, em todos os anos as ruas são as mesmas, porém, muda o local/residência onde para a Romaria, em 2015: 1º Passo, beco da Poesia(casa de Dona Marita); 2 º Passo, na rua Frei Santa Cecília, (casa de Dona Gilza), os Passos são parados em frente as residências, 3º Passo, Praça são Francisco, de onde prosseguem a romaria. O outro cortejo sai da igreja do Carmo acompanhando a imagem de Nossa Senhora em direção à mesma praça. Um sermão é realizado no momento do encontro das imagens, logo após ouve-se o canto da Verônica, o momento mais aguardado pelos romeiros. Os promesseiros atiram suas vestes penitenciais em direção às imagens.
De acordo com o pesquisador Ivan Rego, a referida festa é destinada à renovação de votos em favor do Senhor dos Passos, um dos mistérios da Paixão. São dois dias de celebração onde o Martírio de Cristo e a Dor de Sua Mãe ao presenciá-lo a caminho da Crucificação, são relembrados por milhares partícipes que chegam de várias partes do estado e do Brasil. Os devotos, fiéis, promesseiros, penitentes, turistas e observadores dão a solenidade são cristovense o tom de festa polissêmica e multifuncional onde o destaque fica tanto praças, ações penitenciais públicas relacionadas ao ideal de imitação de um Cristo que sofreu, como para as ações de desobriga. Esses atos de fé e religiosidade em São Cristóvão atestam a eficiência do compromisso entre devoto e o Senhor dos Passos. (ARAGÃO, Ivan. Festa, Memória e Turismo Cultural-religioso)
As festas com base no caráter sagrado ou profano são acontecimentos tradicionais, que deslocam grande contingente de pessoas em busca de conforto espiritual, equilíbrio psicológico, fuga do cotidiano, lazer e enriquecimento cultural. Embora em mais de cinco séculos de presença portuguesa no Brasil, as festas profissionais de origem ibérica tenham se ressignificado, as mesmas são “uma das mais antigas manifestações da vida social no Brasil. Elas diferem umas das outras conforme a época e a sociedade, mas, invariavelmente, representam os valores, reforçam as estruturas sociais e ajudam a construir a identidade de um grupo. ( REGO, Ivan [...]”, apud Ferreira, 2009, p. 11).
Ainda no artigo de Ivan, as celebrações sagradas dão instrumentação para identificar nesses eventos uma vivência do religioso incorporado ao cultural, possibilitando, muitas vezes, a recuperação da própria identidade (Martins & Leite, 2006). No país, ainda predomina o catolicismo como religião em destaque, nesse contexto, ao longo do ano as festas de padroeiros e santos fazem parte do dia a dia das pessoas. Iniciando em janeiro, com as comemorações dos Santos Reis; em abril, a Semana Santa; passando por datas festivas como Corpus Christi e festas do ciclo junino, em junho; e finalizando com o Natal, em dezembro; há ainda as homenagens aos santos e padroeiros, no calendário litúrgico anual. Santos e Nunes (2005), refletem que:

As festas constituem um dos principais momentos do catolicismo popular. É difícil imaginar o cotidiano de uma pequena cidade brasileira sem as agitações das novenas, santas missões, acompanhamentos e procissões. Essas são algumas expressões de religiosidade que acabam por se tornar um grande instrumento para se compreender a sociedade na qual estão inseridas (p. 98). (IBID)    

O pesquisador Magno Francisco, que se dedica há anos estudos sobre religiosidade, nos diz que: “A romaria do Senhor dos Passos também é o lócus dos sentidos. Para sentir o tempo de penitência dos Passos podemos fechar os olhos e ouvir o dobrar dos sinos, os motetos dos sete Passos, o lastimoso canto da Verônica ou os benditos dos pedintes. Podemos sentir os cheiros que rondam a cidade, com os cabelos queimados pelas velas na Procissão do Depósito, com o manjericão exposto nos andores. O paladar também é inconfundível com as famosas queijadas e briceletes vendidos nas ruas e ladeiras da cidade. O calor humano transcende o espaço da igreja, sentido no aperto entre os devotos transportando os andores do Senhor dos Passos e da Virgem da Soledade pelas ruas estreitas. Podemos finalmente abrir os olhos e ver o colorido dos parques de diversões na cidade baixa, o roxo nas sacadas dos casarões, das igrejas e dos corpos dos romeiros, sem esquecer do que os devotos fazem questão de destacar: a beleza dos "olhos vivos dos Senhor dos Passos".
Com relação à guarda da imagem, de acordo com o historiador Thiago Fragata, conforme reza e tradição, a imagem de Senhor dos Passos e a organização do ato processional ficava aos encargos dos leigos da Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, transformada em Associação em 1977. No passado, São Cristóvão foi centro político e religioso da Capitania Del Rey. Assim, segundo Fragata, esse antigo centro de convergência religiosa preserva manifestações culturais do período colonial, como a Procissão de Senhor dos Passos.
Para ele, não é possível datar com exatidão o início da maior Romaria de Sergipe, os indícios acenam que tudo iniciou no final do século XVIII ou início do XIX. Com base em Serafim Santiago, Fragata diz: “consta que a imagem articulada, chamada de roca, em razão das características constitutiva e mobilidade, foi encontrada no rio Paramopama, afluente do Vaza Barris.
No ano de 2010, o Arcebispo José Palmeira Lessa, através de Decreto, oriundo da Arquidiocese de Aracaju, determina: 1 – A Festa Senhor dos Passos da Cidade de São Cristóvão será sempre da responsabilidade e coordenação do sacerdote que tenha a cura pastoral da Paróquia de Nossa Senhora da Vitória; 2 – A antiga e venerável imagem do Senhor dos Passos, conservada no templo chamado Carmo Menor, bem como todo o acervo aí presente, é de responsabilidade de quem ocupa o Convento do Carmo, atualmente os frades da Ordem Carmelita; 3 – Em se tratando de levar a imagem do Senhor dos Passos em peregrinação, fora da tradicional procissão no Tempo da Quaresma, utilizar-se-á sempre uma réplica, confeccionada para este fim, e nunca a imagem original. (retirado na íntegra).
A Festa Nosso Senhor dos Passos, não somente para os são cristovenses, mas, para os sergipanos, principalmente a comunidade católica, possui um valor histórico e cultural, de cunho tradicional religioso. O pedido de registro foi aprovado pelo Conselho Estadual de Cultura, Processo nº22/10, de 02 de julho de 2010, assunto: Registro Senhor dos Passos, como bem imaterial do patrimônio cultural sergipano. Autora da propositura: Ana Nascimento Fonseca Medina, a relatora do processo, foi a conselheira Ana Conceição Sobral de Carvalho, segundo a relatora: 
A magnitude e a abrangência do fato cultural preservado até os dias de hoje, pela comunidade devocional, torna relevante o reconhecimento oficial através do registro como bem imaterial do patrimônio cultural sergipano. (SORBRAL, Ana Conceição de carvalho).
            Para Ana Conceição, assim conhecida, aliada ao registro como patrimônio imaterial, é importante elaborar projeto de mapeamento detalhado do conjunto que envolve o ato religioso e está em seus vários aspectos, como rituais de penitencia, objetos devocionais, músicas, cantos, culinária, entre outros fatos que emanam desse universo místico, para efeito de estudo, publicação e difusão.
Do ponto de vista social, as comunidades, os grupos de pessoas que se reúnem à volta de “uma fé”, fazem da educação o ponto de aprendizagem dos fenômenos religiosos da sua relação com o divino na perspectiva que o ser intelectual só é na sua plenitude enquanto produto do espiritual. Esta relação intelectualidade/espiritualidade constitui-se como parte integrante dum patrimônio religioso e ao mesmo tempo sinal de pertença de um lugar. (CAMPOS, Fernando, Educação e Religião: Patrimônio, Pertença e Identidade).

Todavia, este referencial de cultura também alcança vertentes que envolvem o âmbito social e econômico local, sobretudo, os significados que as comunidades e sociedades atribuem à importância daquele bem religioso/cultural, influenciando os vários meios de difusão inerente também ao âmbito do turismo.
O pluralismo cultural e religioso, apreendido nos estudos das sociedades multiculturais é retransmitido através de veículos acadêmicos onde perpassam todo o viés de segmentos religiosos, onde a cultura predominante em certo âmbito geográfico utilizará de seu entendimento com o campo da divindade, seguindo herança, a fim de dar continuidade também aos processos educativos de ensino/aprendizagem e a transmissão da tradição religiosa de geração para geração.


Aracaju, 25 de fevereiro de 2015.

Marcos Paulo Carvalho Lima
Licenciado em História pela UFS
Especialização em Ensino para a
Igualdade nas Relações Étnico Raciais/FSLF
Pesquisador

Fontes Consultadas:

ARAGÃO, Ivan Rego,. Análise do Marketing Religioso na “Segunda Maior Romaria do Nordeste Brasileiro no Período da Quaresma” História Agora: A Revista do Tempo Presente.
ARAGÃO, Ivan  Rego.  Festa, Memória e Turismo Cultural-Religioso: A Procissão ao Nosso Senhor dos Passos, em São Cristóvão-Sergipe.  Revista  Rosa dos Ventos.
SANTOS, Magno Francisco de Jesus, NUNES, Verônica Maria Meneses, Na Trilha dos Passos do Senhor: A Devoção ao Senhor dos Passos de São Cristóvão/SE. Revista da Fapese de Pesquisa e Extensão, v. 2, p. 97-110, jul./dez. 2005
SANTOS, Magno Francisco de Jesus, Os Últimos Passos de uma Devoção: Indícios da religiosidade de um nobre sergipano oitocentista. Historien, Revista de História(3) apr/set de 2010.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Multidisciplinaridade: o patrimônio cultural propicia encontros (Parte 2)


http://www.faxaju.com.br/conteudo.asp?id=194128

        As primeiras políticas oficiais de patrimônio cultural no Brasil iniciaram em 1936 com o anteprojeto proposto por Mário de Andrade, que colaborou com a criação de um órgão federal voltado a proteção desse patrimônio. O primeiro gestor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, (antigo SPHAN), foi Rodrigo Franco Melo de Andrade, para ele: desaparecimento e reconstrução é que movia as narrativas nacionais sobre patrimônio cultural, em sua busca por autenticidade e redenção, se referindo as obras de artes, a arquitetura barroca e católica como referenciais para o processo de patrimonialização. Ele usava sempre a história como disciplina chave.
O historiador Reginaldo Gonçalves em a Retórica da Perda faz um apanhado sobre os primeiros discursos sobre o patrimônio cultural brasileiro. É uma oportunidade de adquirir um entendimento sobre como iniciou efetivamente às políticas voltadas a preservação do patrimônio cultural no país, como por exemplo, o Tombamento.
Dois momentos são fundamentais para implementação de políticas de preservação voltadas ao patrimônio histórico e cultural no Brasil, podemos entender que são dois momentos distintos sobre as narrativas e abordagens acerca do patrimônio cultural. O primeiro inicia-se na década de 30 com Mário de Andrade e Rodrigo Melo Franco de Andrade como mencionado anteriormente, e o segundo momento é o da política implementada por Aloísio Magalhães, no Centro Nacional do Folclore e sua rápida passagem como gestor do IPHAN.
Aloísio Magalhães se refere a bens culturais em observância à pluralidade cultural do país, a cultura popular tradicional e contribuições das comunidades tradicionais remanescentes de sociedades primitivas: as etnias indígenas e africanas, utilizando a antropologia como disciplina referencial.
A década de 1930 foi um período de mudanças no Brasil, naquele momento, educação e cultura estavam circunscritas a um único universo, também na mesma década as primeiras ações legais voltadas para a conservação e valorização do Meio Ambiente. Estes temas estavam representados principalmente pelo Código Florestal instituído através do Decreto nº 23, 793, de 23 de janeiro de 1934 e pelo Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, que organiza a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional.
Destaco aqui, o interesse na paisagem como um bem patrimonial. De acordo com Rafael Ribeiro, geógrafo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tal interesse se manifestou na criação do Livro de Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. Assim como houve transformação nas práticas de preservação dos demais bens culturais, as formas de compreensão da paisagem e sua valorização também se transformaram ao longo do tempo (Rafael Ribeiro, pg 07). Contemplarei nesse texto, o tema Paisagem como Patrimônio Cultural, utilizo a geografia como linha orientadora base desse trabalho, onde urbanismo, ambiente e o meio ambiente aparecem camufladamente.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/IPHAN recentemente incorpora o tema paisagem cultural, Luiz Fernando de Almeida, ex-presidente do órgão, nos conta que sua característica fundamental é a ocorrência, em uma fração territorial, do convívio singular entre a natureza, os espaços construídos e ocupados, os modos de produção e as atividades culturais e sociais, numa relação complementar entre si, capaz de estabelecer uma identidade que não possa ser conferida por qualquer um deles isoladamente. Com a adoção de categoria integradora de paisagem cultural o IPHAN responde à crescente complexidade da sociedade contemporânea, que exige um conjunto maior de instrumentos urbanísticos, ambientais e jurídicos de proteção do patrimônio e aponta a possibilidade de se viabilizar um trabalho de gestão do território pactuado entre os diversos agentes da esfera pública e privada. (paisagem e patrimônio cultural, pg 07).
            Para Ribeiro, a vinculação entre paisagem e patrimônio cultural não é recente, mas vem ganhando especial destaque, nas últimas décadas, em determinadas áreas, através de noção de paisagem cultural. No entanto, a pequena participação de geógrafos dentro das instituições de preservação do patrimônio cultural no país fez com que a vasta contribuição da geografia neste campo tenha permanecido conhecida apenas por alguns iniciados. Por esta razão, é importante discutir como a paisagem se transformou mais de um conceito-chave para algumas correntes da geografia e como a discussão de mais de um século sobre o tema pode ser importante para o desenvolvimento de novas reflexões sobre as estratégias de atribuição de valor de uma paisagem. (IBID). Para maior compreensão, recomendo leitura da obra Paisagem e Patrimônio Cultural, citada nas fontes consultadas.
De acordo com o geógrafo Milton Santos: É por demais sabido que a principal forma de relação entre o homem e a natureza, ou melhor, entre o homem e o meio, é dada pela técnica. As técnicas são um conjunto de meios instrumentais e sociais, com os quais o homem realiza sua vida, produz e, ao mesmo tempo, cria espaço. Essa forma de ver a técnica não é, todavia, completamente explorada. (Santos, pg 16).
Santos nos conta que historiadores da ciência e especialistas da técnica, como é o caso de B. Joerges (1988, p. 16), lamentam o fato de que nos estudos históricos a realidade dos sistemas técnicos apareça como um dado entre aspas, faltando a conceptualização. Para ele, essa crítica, aliás, não é recente. M. Mauss, um dos principais seguidores de Durkheim, lembrava, num dos seus textos da revista UHomme Sociologique, que a sociologia de Durkheim não havia atribuído a importância devida ao fenômeno técnico. Essa crítica é compartida por Armand Cuvillier (1973, p. 189), ao se referir a três grupos de estudiosos que "tomaram consciência" da importância da técnica: a) pré-historiadores e arqueólogos; b) etnógrafos (que escrevem a história dos povos "sem história") e c) tecnólogos propriamente ditos. Mauss (1947, p. 19), aliás, havia proposto a criação de um saber - a Tecnomorfologia - que se ocuparia do conjunto das relações entre as técnicas e o solo e entre o solo e as técnicas, dizendo que "em função das técnicas é que observaremos a base geográfica da vida social: o mar, a montanha, o rio, a laguna". (Santos, pg 17)
Tomando um aspecto concreto da análise geográfica, Pierre George (1974, p. 82) distingue a cidade atual da cidade anterior, lembrando que esta, na metade do século XIX, seria um produto cultural. Hoje, a cidade "está a caminho de se tornar muito rapidamente, no mundo inteiro, um produto técnico". E acrescenta: "a cultura era nacional ou regional, a técnica é universal".
Outro geógrafo que se deteve longamente sobre a questão da técnica foi Pierre Gourou (1973), para quem "o homem, esse fazedor de paisagens, somente existe porque ele é membro de um grupo que em si mesmo é um tecido de técnicas". Os fatos humanos do espaço teriam de ser examinados em função de um conjunto de técnicas. Ele divide as técnicas em dois grandes grupos: técnicas da produção e técnicas de enquadramento. (IBID).
Em Sergipe tem a Fonte dos Caboclos no município de Cristinápolis, tombado pelo Governo do Estado, de interesse paisagístico, histórico, cultural e arqueológico que precisa ser mais explorada no que se refere à pesquisa e implementar ações que visem a preservação do bem.
(...A geografia baseia-se, na realidade, na união dos elementos físicos e culturais da paisagem. O conteúdo da paisagem é encontrado, por tanto, nas qualidades físicas da área que são importantes para o homem e nas formas do uso da área, em fatos de base física e fatos da cultura humana... RIBEIRO, Rafael apud Carl Sauer, 1996 [1925]).
          Dessa forma, entendemos que a Fonte dos Caboclos precisa ser rediscutida no tocante a salvaguarda do monumento e conservação ambiental, para que o seu uso, ou seja, o seu ambiente seja utilizado de forma sustentável, para que as futuras gerações possam desfrutar o bem cultural.
A cada ano crescem as demandas referentes ao patrimônio cultural, é importante que os órgãos estaduais de patrimônio formem equipes multidisciplinares focando a interdisciplinaridade, a intersetorialidade, articulando com os órgãos federais, estaduais e os municipais.
Assim, o patrimônio cultural reúne diversos campos do conhecimento científico e do saber comum das pessoas, colaborando para o desenvolvimento local, regional, de um país e do mundo.
                                              
Marcos Paulo Carvalho Lima
Pesquisador
Licenciado em História/UFS
Especialização em Ensino para a
Igualdade nas Relações Étnico-Raciais/FSLF


Fontes Consultadas:

GONÇALVES, José Reginaldo, A Retórica de Perda: primeiras discussões sobre o patrimônio cultural brasileiro. MINC/IPHAN. 2005.
RIBEIRO, Rafael Winter, Paisagem e Patrimônio Cultural. Pesquisa e Documentação do IPHAN/MINC. Rio de Janeiro, 2007.
SANTOS, Milton, 1926-2001. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção / Milton Santos. - 4. ed. 2. reimpr. - São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006. - (Coleção Milton Santos; 1).
_______ Patrimônio: Práticas e Reflexões. Metodologia de Pesquisa e Multidisciplinaridade no IPHAN. Rio de Janeiro, Copedoc/DAF/IPHAN, 2010.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Multidisciplinaridade: O patrimônio cultural propicia encontros

http://www.faxaju.com.br/conteudo.asp?id=187861

15/8/2014 07:01:26


O dia 17 de agosto é celebrado o dia do patrimônio histórico e Cultural brasileiro. A data foi escolhida em virtude do nascimento do primeiro presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/IPHAN, Rodrigo Melo Franco de Andrade.
O tema patrimônio cultural reúne diversas áreas do conhecimento, como: história, ciências sociais, museologia  direitos culturais, meio ambiente, educação, entre outros segmentos de estudos e pesquisas do campo cultural, social e da memória coletiva de um povo e de uma nação.
Para comemorar o Dia Nacional do Patrimônio Cultural, várias atividades ocorrem por todo o país, ações de educação patrimonial, palestras, oficinas, entre outras atividades com o objetivo de difundir e salvaguardar a memória coletiva.
Como diz a professora Ana Conceição Sobral de Carvalho, uma das mais experientes da área de preservação do patrimônio cultural sergipano: “O patrimônio cultural do povo deve ser preservado e vivenciado por cada um de nós, sem discriminação de época e poder.”
 Na visão de Rodrigo de Andrade, para ele: desaparecimento e reconstrução é o que move as narrativas nacionais sobre patrimônio cultural. Em sua busca por autenticidade e redenção, se referindo as obras de artes, a arquitetura barroca e católica como referenciais de patrimônio. Ele usava sempre a história como disciplina chave. Diferentemente de Aloísio que se refere a bens culturais em observância à pluralidade cultural do país, a cultura popular tradicional e contribuições das comunidades tradicionais remanescentes de sociedades primitivas: as etnias indígenas e africanas, utilizando a antropologia como disciplina referencial. Reginaldo Gonçalves, utiliza discurso da perda(A retórica da perda), se referindo ao processo de miscigenação e o de homogenização  sendo um pouco contraditório, já que a tal perda seria por conseqüências as vezes impostas ou por decorrência de algumas situações.
As políticas oficiais de patrimônio cultural no Brasil se deram em 1936 com o anteprojeto proposto por Mário de Andrade, que colaborou com a criação de um órgão federal voltado a proteção desse patrimônio. Antes, precisamente em 30, uma política educacional e cultural já se incorporava no plano do governo como tarefa assumida.
 Durante o populismo de Vargas o país passou por várias transformações no campo social e cultural, com metas e desenvolvimento em questões ligadas a modernidade, como também as primeiras medidas de implementação de políticas culturais. O Ministro de Educação e Cultura na época era Gustavo Capanema, que convidou Mário de Andrade para elaborar o tal anteprojeto para a criação do órgão de patrimônio, entregue em 24 de março de 1936, assim sendo, algumas das primeiras medidas de institucionalização da ação do Estado sobre a cultura, ocorrendo no campo do patrimônio em 1936 com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Para a professora Mônia Luciana Silvestrin , as palavras que formam o termo “patrimônio cultural” explicitam os sentidos básicos para a compreensão do que se trata esse conceito. A primeira nos remete à ideia mesma de valor, algo importante, que se acumula e transmite através do tempo e das gerações, que se constitui como “herança”. Assim ela indaga: Mas qual herança? De quem para quem? De acordo com Mônia, a construção para a ideia de patrimônio cultural se deu no bojo de dois processos históricos muito importantes para o Ocidente: a construção dos Estados-Nação europeus e a formação da História como um espaço específico do conhecimento, como ciência, ambos ocorridos entre o final do século XVIII e o XIX. Assim, para ela, não é difícil essa relação íntima entre eles: para unificar populações, culturas, território, operação imprescindível na construção dos Estados contemporâneos.
Dessa forma, foi preciso construir a própria ideia de “nação”, que se fundamenta em alguns elementos estruturantes: um conjunto de pessoas que partilha de uma mesma cultura, uma língua, uma origem comum, experiências vividas, uma única identidade, ou seja, um povo. (SILVESTRIN, Monia Silvana. Tratando de Conceitos, Patrimônio Imaterial: Fortalecendo o sistema nacional, pag 04.)
 Partindo dessa concepção, não podemos deixar de mencionar o índio, os povos indígenas, para falar de patrimônio cultural não podemos deixar de hipótese alguma de fora os nativos desse país, como também, a importância da cultura africana, como todos os grupos étnicos e sociais que contribuíram para a formação social e cultural do Brasil.
Concernentes as comunidades tradicionais, esses povos detém conhecimentos que também se formam como parte integrante de um patrimônio coletivo de culturas especificas, entretanto, para Rosimeire Melo e Rita de Cássia os sujeitos ao agirem com/sobre os meios onde vivem, recriam seu cotidiano e estabelecem territorialidades, na acepção de conferir à extensão do território apropriado e usado, por uma dada população, características de exclusividade. Tem estudos sobre comunidades tradicionais, que o foco quase sempre se refere a exploração econômica dos conhecimentos tradicionais, sem demonstrar qualquer interesse pelas comunidades tradicionais em si. De acordo com Luciano Santana e Thiago Oliveira, acredita-se não existir conflitos entre se proteger os bens ambientais quanto os culturais materiais em relação ao patrimônio cultural imaterial decorrente de populações tradicionais, tendo em vista que essas comunidades também integram o meio ambiente no aspecto cultural, sendo consideradas elementos integrantes da paisagem e não indivíduos que somente estariam ocupando ou usufruindo certo bem ambiental como um espaço cultural protegido.
Conforme Souza e Costa (2011), o estabelecimento da territorialidade é compreendido enquanto relações existentes entre uma comunidade e seu patrimônio ecológico e sua herança social.  Para Haesbaert (2007, p. 25), no âmbito da antropologia está territorialidade que é simbólica e permeia as distintas culturas e formas de organização social, orienta maneiras próprias de conceituar, interpretar e agir sobre a natureza. Ela é a dimensão simbólica ou identidade territorial. (apud, SOUZA, Rosimeire Melo, SILVA, Rita de Cássia).
Sendo assim, o patrimônio cultural reúne diversas áreas do conhecimento, propiciando encontros entre diversos campos dos estudos culturais e sociais.

Rio de Janeiro, 14 de agosto de 2014.

Marcos Paulo Carvalho Lima
Pesquisador

Fontes Consultadas:
LIMA, Marcos Paulo Carvalho. Monumentos históricos e culturais de Aracaju: um breve histórico. / Marcos Paulo Carvalho Lima. – São Cristovão, 2013. 86f.
SANTANA, Luciando Rocha e OLIVEIRA, Thiago Pires. O patrimônio cultural imaterial das populações tradicionais e sua tutela pelo Direito Ambiental.
SILVESTRIN, Monia Silvana. Tratando de Conceitos, Patrimônio Imaterial: Fortalecendo o sistema nacional.
SILVA, Maria do Socorro Ferreira e SOUZA, Rosemeri Melo. Unidades de conservação como estratégia de gestão territorial dos recursos naturais

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Culinária como referência cultural


Culinária como referência cultural




Os saberes e fazeres dos mais diversos pratos da culinária brasileira estão ligados aos aspectos socioculturais de nossa história, sobretudo, aos encontros entre várias culturas ao longo do tempo. Sendo assim, recebemos a influência de outros povos que aqui estiveram, nos deixando legados que hoje fazem parte do nosso patrimônio cultural.
Os índios e os africanos são grupos étnicos que contribuíram incomensuravelmente para a formação das identidades culturais do país. Não há como falar de história, memória e patrimônio cultural, sem mencionar a figura desses povos. Em nossa gastronomia, podemos perceber claramente no preparar dos alimentos, as maneiras de servir e de comer. Não obstante, a contribuição deixada pelos europeus, principalmente, os portugueses, como de outros grupos étnicos e sociais A união desses grupos criou uma cozinha tipicamente brasileira.
 A diversidade presente no meio ambiente propicia uma gama de receitas em nossa culinária, como por exemplo, a farinha de mandioca, tão popular entre o povo, de qualquer classe social, sendo uma herança indígena que através de sua matéria prima, diversos alimentos são criados e recriados.
O reconhecimento e a valorização do alimento pelo seu caráter simbólico, nos traduz a comida enquanto um elemento de referência cultural. Assim, a gastronomia é parte desses processos culturais para entender a nossa identidade. Como também, a noção que podemos denominar como bem cultural imaterial uma ou mais culinárias, a depender de sua identificação.
Cada cultura gera uma gastronomia tradicional, com suas peculiaridades presentes em todas as receitas. Os saberes e fazeres em torno da comida é objeto de registro enquanto patrimônio imaterial, e não a comida em si. A mistura dos alimentos e o encontro de diversas tradições culturais fazem a inter-relações entre os aspectos culturais e simbólicos a partir do preparo dos alimentos. (AGUIAR, Janaina Couvo. Identidade, Patrimônio Cultural e Comida).
Através do decreto nº27.720, de 24 de março de 2011, Sergipe reconhece algumas comidas, a saber: a  queijada, o manauê, o beiju de tapioca, a bolachinha de goma, o doce de pimenta do reino, o pé-de-moleque de massa de puba, o amendoim verde cozido, o macasado e o saroio. Concernente ao Amendoim Verde Cozido, temos outro instrumento de salvaguarda que é a Lei nº7.682, de 17 de julho de 2013, que torna Patrimônio Imaterial de Sergipe e dá outras providências correlatas.
(...) Conforme estudos realizados pela pesquisadora Ana Maria Medina, a Cultura alimentar é fator de identificação das comunidades. Os alimentos encerram em si mesmos as histórias dos ritos e de suas culturas, sendo, portanto, pertinente sua classificação como bem imaterial.  No Brasil, a mistura de etnias criou uma culinária plural com marcas indígenas, africanas e européias. O colonizador não fugiu ao processo de aculturação, encontrou as nossas farinhas nativas e com elas adaptou às suas receitas.(...)
        Como descreve a pesquisadora, Sergipe recebeu de forma efetiva em sua culinária a influência da cozinha indígena, da cozinha proveniente dos engenhos-casa grande e senzala e da culinária conventual, freirática, com doces, sequilhos e licores, etc.
Ao falar de comidas típicas do Brasil, lembramos logo de uma raiz bem genuína,  a mandioca. Através dela várias receitas são produzidas e estão ligadas a certos espaços geográficos. A mandioca está presente de norte ao sul do país, possui grande importância histórica e cultural, sendo fundamental por um longo período, na alimentação dos nativos como também dos europeus. Vários pratos são preparados provenientes dessa matéria prima, como o beiju, considerado o pão dos índios brasileiros. Diversos tipos e sabores de beiju eram preparados pelos nativos.

            Uma variedade de alimentos tradicionais são vendidos em feiras livres e algumas dessas culinárias possui um caráter de identificação local. Quando falamos de queijada em Sergipe, por exemplo, nos reportamos logo a São Cristóvão. Isso não quer dizer que a queijada é comercializada somente nesse município. No entanto, os modos de fazer queijada e bolachinha de goma de São Cristóvão, são as que foram consideradas patrimônio cultural sergipano, dentro das comidas selecionadas no Decreto 27.720. Por exemplo, no município citado temos três grandes famílias que produz a Queijada, na Avenida Lourival Batista, conhecida como Colônia Pintos, com a família de Dona Maria, na Ilha Grande com Dona Madalena, e no Povoado Pedreiras com a família de Dona Maria de Neném da Padaria Colonial. No Centro Histórico de São Cristóvão, temos a Casa da Queijada de Dona Marieta, que além de fabricar também comercializa. 
             A comida tem o poder de nos transportar rapidamente ao passado. Provoca a nossa memória, nos traz lembranças principalmente através dos sabores e dos cheiros. Quem nunca comeu algo e lembrou mamãe, vovozinha, titia fulana de tal? Mas, quem nunca comeu algo e lembrou uma localidade, um povo? Porém, quando a lembrança é coletiva, nos faz identificar a tamanha referência cultural de um bem, e por ai, passamos a denominá-lo como patrimônio cultural após o reconhecimento.

Aracaju, 17 de julho de 2014.

Marcos Paulo Carvalho Lima
Pesquisador



Referências Bibliográficas:
CASCUDO, Luiz Câmara. História da Alimentação no Brasil. 1968
FREIRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. 1933
Fontes Consultadas:
Decreto nº27.720
Lei nº 7.682
Processo nº027.000.000.32/2009/SEC

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Barco de Fogo, um espetáculo do ciclo junino considerado patrimônio cultural sergipano



* Marcos Paulo Carvalho Lima


As festividades juninas foram trazidas para o Brasil pelos portugueses durante o período colonial. Os países de origem católica louvavam e homenageavam o São João, por isso, a festa também é conhecida como Joanina. No Brasil, têm grande influência agrária, está ligada a zona rural, a terra e à sua fertilidade, como nos conta os pesquisadores Roberto Benjamim e Aglaé D’Ávila, em São João Dormiu e São Pedro Acordou. Aliás, fonte bibliográfica para esse diálogo.
Trazido para o Brasil por influência portuguesa, o festejo é resultante da aglutinação dos cultos pagãos em louvor a terra como a data de nascimento do santo católico João, que foi preparador da vinda de Cristo. Do ambiente rural passou para a cidade. Nela se procura, entretanto, sempre reviver os costumes rurais[1]. Daí os trajes, a comida, a música, a dança, entre outros aspectos da cultura que remontam o passado ao presente.
[2]O mês de junho é momento de homenagear principalmente três santos católicos: Santo Antônio São João e São Pedro. Como é uma região onde a seca é um problema grave, os nordestinos aproveitam as festividades para agradecer as chuvas raras na região, que servem para manter a agricultura.
O fogo simboliza a purificação e há os que afirmam que “as almas danadas serão consumidas pelo fogo do inferno”. O fogo é considerado também como uma representação do sol e sua utilização é milenar. Chineses, indianos, e árabes já usavam o fogo nos seus festejos (São João Dormiu São Pedro Acordou, pg. 08.)
Concernente à conservação ambiental e a relação homem e natureza, nos fala Roberto sobre a passagem do homem da vida rural para a urbana: O homem é, porém, parte da natureza e ao construir uma cultura que o distancia dela, se violenta. Assim diz que a retomada de um calendário construído sobre os ciclos naturais, marcando as variações culturais do tempo e do lugar, é uma aspiração que se baseia não apenas em um sentimento de saudade, de evocação de um tempo perdido, mas se adequação da vida urbana a uma cultura que não se afaste o homem da natureza. (Roberto Benjamin, A Religiosidade Popular e o Folclore do Ciclo Junino, São João Dormiu, São Pedro Acordou)  
O fogo é um louvor, e a fogueira é um dos símbolos que mais referencia o mês de junho. Os fogos de artifício, os foguetes, as espadas, os busca-pés, as chuvinhas, o peido de veio, entre outros, são parte desse momento tão precioso para o povo nordestino.  Tirando os perigos e os cuidados a serem tomados, complementam a alegria dos festejos do ciclo.
Durante o mês de junho, três santos são festejados como mencionado anteriormente, Santo Antônio, São João, São Pedro, porém, temos o esquecido São Paulo, comemorado no dia 29. Só que, não podemos esquecer também que apesar do São José não datar do mês de junho, faz parte do ciclo junino, pois, em seu mês, inicia a plantação do milho, por exemplo. Conforme a tradição religiosa é preciso chover no Dia de São José, para que o ano seja bom em termos de chuva e a colheita satisfatória. Sabemos que a louvação é mais presente na crença católica dessa época, mas, não podemos deixar de fora toda a religiosidade popular que envolve também os grupos folclóricos com influências de outros grupos étnicos e sociais.  
Sem dúvida o mês de junho é o tempo mais esperado pelos nordestinos. É uma época de religiosidade popular, de manifestações da cultura tradicional: culinária, artesanato, quadrilhas juninas. É época do Barco de Fogo!!!!! De Estância para Aracaju, entre outros municípios sergipanos.
Quando se fala em festejos juninos em Sergipe, é impossível mesmo com o Forro Caju e o Arraial do Povo, não mencionar o São João em Estância (São João de Estância), destaque da história e cultura junina do Estado. As manifestações em torno do ciclo junino iniciam-se com o envolvimento dos homens brincantes e os fogueteiros, no Batuque do Pisa-Pólvora e na fabricação dos Busca-Pés. Todo esse preparativo se dá no mês de janeiro para fevereiro, quando o bambu é cortado.
Esses brincantes em sua maioria integram profissionalmente as duas associações de fogueteiros do município e/ou participam de grupos folclóricos, como: Batucada e Batucada Busca-Pé.
Referente ao barco de fogo, propósito maior desse diálogo, é um bem histórico e cultural feito artesanalmente, de cunho tradicional ligado ao ciclo junino. Produzido exclusivamente em Estância. O bem cultural em sua origem data do inicio do século XX, criado por Chico Surdo. De acordo com Ronaldo(Roni), fogueteiro nascido no município e há 30 anos está no meio dos fogueteiros, não se tem precisão quando iniciou a produção do barco de fogo, mas, é uma tradição que se arrasta por décadas, passando de geração em geração. A transmissão do saber e fazer o barco de fogo é tradicional em Estância: Os pais vão passando conhecimento da produção de fogos para os filhos, parentes, os ajudantes, como também aqueles que estejam no meio e se interessem pela produção do bem cultural. Roni tem quatro ajudantes que já são fogueteiros profissionais. Para ser considerado fogueteiro profissional tem que saber fazer “tudo relacionado ao fogo”. Primeiro passa por ajudante, depois se torna um profissional do ramo. Para isso, tem que ter capacidade e compromisso! Afirma o fogueteiro Ronaldo.
Em Estância existem duas associações. Para ser considerado um fogueteiro profissional tem que passar por alguns testes. Após avaliação e aprovação, se afilia a associação envolvida, e, é considerado um fogueteiro profissional. Em conversa com Valdivino Menezes, Presidente da Associação de Fogueteiros e Barqueiros de Estância, o dia 11 de junho é um momento importante para os estancianos, é o dia do Barco de Fogo, e, nos faz lembrar o seu fundador, Chico Surdo, porém, nos dias 23 e 24 é onde acontece a nossa festa maior, tem a procissão dos grupos folclóricos, o casamento, os fogos de artifício e a apresentação do Barco de Fogo.
A maior tradição de Estância na área de fogos é o Busca-Pé, onde o barco de fogo está ligado diretamente. Não tem barco de fogo sem Busca-Pé!
Para a produção desse bem histórico e cultural, ocorrem vários processos que vai da aquisição da taboca, corte do bambu, exposição do mesmo ao sol, entre tantos procedimentos que envolvem a parte estética ao formato do bem cultural, que em sua essência é um Barco, porém, podendo representar um avião, um ônibus, por exemplo.
O Poder Público Estadual reconhece o Barco de Fogo como patrimônio cultural do povo sergipano, através da Lei 7.690. O dia 11 de junho é considerado como o Dia do Barco de Fogo, data de nascimento de seu criador, Chico Surdo, e, faz parte do calendário cultural do município de Estância.
Sendo assim, a Subsecretaria de Estado do Patrimônio Histórico e Cultural/SUBPAC, vem realizando estudos visando o registro de bens considerados patrimônio imaterial e/ou intangível do Estado. Esses estudos não objetivam somente a inscrição dos bens culturais reconhecidos em respectivos Livros, mas, principalmente desenvolver medidas e instrumentos que visem à promoção e salvaguarda, para que gerações futuras possam desfrutar e vivenciar essas culturas.

Fontes e Textos visitados:
O São João na Estância. Ofenísia Soares Freire
A Batucada do Pisa. Aglaé D’Ávila Fontes
Jornal Folha Trabalhista, Estância/SE. 1971 e 1972



*Marcos Paulo Carvalho Lima
Pesquisador


[1]  FUNDESC, São João Dormiu, São Pedro Acordou. Aracaju 2014.